Frank e Dan: A alegre e descomprometida viagem pela vida

glass/Eduardo Bettencourt Pinto

Fui ao aeroporto buscar o Frank. Chegou com o sorriso de um pescador feliz, a pele escurecida pelo sol da Austrália, sandálias de borracha, o longo cabelo grisalho apanhado numa trança e a camisa aberta como se tivesse aterrado na praia. Nos olhos, porém, dançavam ainda as sombras de uma palmeira.

– Não vens preparado para o Inverno – disse-lhe enquanto nos dirigíamos para o carro.

Frank é um optimista. Respondeu-me como tal:

– Eu sei. Não te preocupes: tenho algumas camisas. É apenas uma questão de vesti-las umas em cima das outras.

Estava vento. Um céu de nuvens cinzentas, baixas, capitulavam, exangues, sob a irremediável pressão de um horizonte de chumbo. Ao lado dele, casaco grosso, luvas e cachecol, eu parecia estar a acompanhar um frugal e austero ser de outro planeta.

Frank não é um contestatário. Tão-pouco desses sujeitos que julgam iludir o crepúsculo da vida actuando com a insensatez de adolescentes rebeldes, supondo retardarem assim o relógio biológico. Ele não vive à margem da sociedade. Trabalha, paga impostos. Socializa. Tem amigos. Pode, em princípio, ser tido como um romântico mas não é. Ser-lhe-ia impensável, por exemplo, observar o brilho das estrelas nas longas noites das suas vigílias, deitado placidamente na rede da sua preguiça, estrategicamente presa a duas palmeiras perto do mar. Nem o rumor marinho lhe suscita poemas platónicos. O seu modo de vida é o reflexo de uma filosofia própria, vincada pela intensa necessidade de ser livre. Vive sem protagonismos e exibições de carácter estapafúrdico. Tanto se lhe dá dormir numa cama confortável de um hotel de luxo, como num banco de aeroporto. Adormece com alma de viajante, tranquilo e feliz, indiferente aos olhares furtivos e julgadores dos inconsoláveis cínicos deste mundo. Defende que os preconceitos são essa coisa funesta que tanto oprimem quanto limitam o livre curso da espontaneidade. Frank é um pássaro sem asas. Voa no chão, entre o fulgor do sol e da lua.

Vai para a Austrália todos os Invernos. Cultiva legumes e vende-os nas feiras de sábado, tagarelando com os clientes, assobiando, o boné com a pala virada para a nuca, feliz da vida. Regressa a casa como os pragmáticos gansos canadianos, vindos das migrações anuais pelas terras quentes dos Estados Unidos para se refugiaram do frio. Como eles, Frank é um errante organizado. Mas não é o único que conheço.

Há anos atrás, em Puerto Vallarta, conheci um americano que partilha, de uma certa maneira, o mesmo estilo de vida do Frank.

Estávamos alojados no mesmo hostel, um lugar modesto perto do centro. Apareceu à mesa do pequeno-almoço muito solto nos seus largos calções vermelhos, caídos sobre os joelhos, T-shirt sem mangas, o cabelo loiro, comprido, a escorrer-lhe pelas costas numa linha fina e cintilante. Cordial, prestável e muito educado, o Daniel salientava-se dos restantes hóspedes pela sua afabilidade e gosto em conversar.

Almoçámos uma ocasião, e por acaso, num restaurante perto da catedral. Observava as pombas ociosas através dos vidros quando uma voz me acordou da minha letargia. Era o Daniel.

– Posso sentar-me?

O restaurante fervilhava com turistas e clientes locais num assalto contínuo às mesas. A televisão, uma caixa ruidosa, atirava-nos aos ouvidos o tédio e a rouquidão de vozes ininteligíveis. Hora de bulício e telenovelas. Olhares mexicanos, virados para o tecto, absorviam-nas com indecifrável interesse. Em qualquer lugar do mundo, a noite de vidas apagadas parece ganhar claridade e objectivo na ilusão de outras vidas, mesmo que fictícias e irreais.

Alheio a tudo isso, Dan recebeu com renitência o cardápio que a jovem empregada lhe estendeu. Limpou-o com repulsa ao guardanapo.

– Se não fosse pela inconveniência, passava a andar de luvas de borracha. O mundo é uma coisa suja. Detesto a sensação do suor dos outros nas coisas.

Achei a observação estranha. A ementa, impressa a letra de computador e protegida do contínuo manuseamento público por uma capa transparente de plástico, não suscitava reservas quanto à sua limpeza. Daniel, no entanto, parecia ter olhos microscópicos. Sondava os outros com a insistência febril de um nefelibata em devaneio delirante, à cata de micróbios e de outras bactérias nefastas que o pudessem eventualmente molestar. Recusava apertos de mão, efusivos ou de circunstância, guardando sempre alguma distância entre ele e os outros.

Daniel vivia na Califórnia numa velha carrinha. Andava de lugar em lugar como o vento, sustentando-se de biscates. Pela tarde estacionava-a na praia para desfrutar do mar e do horizonte aberto do céu.

Volvidos alguns anos sobre esse encontro, constato que Daniel continua o mesmo. Leio com frequência os seus comentários nas redes sociais, quase sempre acompanhados de fotografias. A sua irreverência mantém-se intacta como naquela tarde sem nuvens de Puerto Vallarta, o seu olhar de pombo a voar sobre a parca lista do almoço, testa franzida, a luz da rua a bater-lhe de lado e a deixar no chão uma sombra cálida e insondável.

Tanto o Frank como o Daniel não têm vidas extraordinárias. Nem as suas opções se coadunam com os valores e a ética da maioria de nós. Convenhamos que o ser humano não é uma rocha no meio do mar. Precisamos uns dos outros para nos sentirmos vivos, menos sós, para dar e receber afecto, crescer intelectualmente. No entanto, essa espécie de irreverência que ambos praticam tem o seu lado poético. Alimenta-se de um minimalismo existencial sem redes nem preocupações atávicas, como uma planta selvagem que surge, solitária, na imensa paisagem dos dias e que se mantém intacta e firme até ao fim.

Nem todos querem seguir o modelo de existência que lhes foi dado à nascença. Nem todos vivem presos à parede ancestral, fechados, quantas vezes, na melancolia daquilo que é confortável e previsível. O desejo de aventura sobrepõe-se a tudo. Arrasta-os para a estrada, convida-os para o caminho sinuoso do mistério numa entrega absoluta, total, insuprimível.

Seguir pela cauda do vento desprovido de bússola, e ao sabor do imprevisto, poderá ser visto como uma forma egoísta de não assumir quaisquer responsabilidades afectivas. Mas quem pode descodificar a insaciável necessidade do ser humano em tentar, na medida da sua visão da vida, reinventar a efemeridade? Talvez seja isso o que o Frank e o Daniel nos queiram demonstrar.

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