Instantaneus

bulbs/Eduardo Bettencourt Pinto

Guardar na terra

Teodoro, o esquilo, passa a correr, a cauda no ar. É ligeiro. Trepa pela cerca, seguro como se estivesse no chão, e logo desaparece. Vive escondido entre os áceres. Tem pêlo negro, sadio, e olhos brilhantes como duas pedras preciosas. Sinto por ele o carinho que nutro pela fresca brisa do Estio quando o ar, insuportável e quente, me derruba até à exaustão. Há uma frescura imensa neste pequeno ser, no seu rumor de silêncio, na fragilidade e na graça do corpinho. Vem com a nobre missão de plantar amendoins entre as plantas do jardim. É precavido, frugal, e de boa memória.

Volta sempre. Lança as mãozinhas à terra com a subtileza de um lavrador de sonhos e cava com infalível pontaria até reaver o tesouro que deixou em dia de abundância. Descasca o amendoim sentado, atento a tudo ao seu redor. Come sempre da mesma maneira, urgente, como se fosse a última coisa que estivesse a fazer neste mundo.

Nem todos os vizinhos gostam dele.

Fay, de óculos escuros, levanta o braço num gesto de confrangimento.

Não gosto desses bichos! – diz. – Não passam de ratos, inconvenientes e sujos. Repare nas cascas que ele deixou atrás. Devíamos correr com eles à vassourada.

Ao encontro da memória

Em noites brancas oiço, perto, os coiotes. Quantas vezes penso levantar-me, pegar numa lanterna, ir ao seu encontro. Mas as noites, por esta altura do ano, são frias. Não apetece sair da cama quente. Também não posso garantir que os veja. Eles são a noite. Movem-se no escuro como ninguém, vogam sobre a escuridão.

Minha mãe ouvia o farejar das hienas junto à porta. Seria imprudente ir espreitar, o meu pai ausente na Gabela, nós, os meninos, na idade ainda dos frutos verdes. Estávamos no Sul de Angola. Corriam, lentos, os anos cinquenta.

Oiço os coiotes, plangentes, na penumbra do meu quarto. Chove devagarinho e tarda a Primavera.

Acendo a luz do candeeiro e verifico as horas. Até ao amanhecer, vai levar muito tempo. Pego num livro. Minha mãe no pensamento, as Salinas, as hienas. Agora os coiotes, a noite branca, funda, o irresistível, incontornável sentimento de nostalgia aquecendo-me como um cobertor.

Altivez

Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes.
William Shakespeare

A cor das árvores parecia ter saído de uma tela de Matisse. O homem, sentado na esplanada, partilhava a mesa com outro. O seu olhar vagueava pelos grupos dispersos à sua volta. Não lhe interessava o fulgor, a extraordinária beleza dos jacarandás (jacaranda mimosifoli). Observava, muito atento, as outras mesas. Era um homem pequeno, ombros femininos, muito penteado. Tinha ares de juiz sentado numa poltrona faustosa. Os olhos, iluminados pela fosforescência da tarde, brilhavam de cinismo por trás das lentes dos óculos.

Nunca vi tanto escritor menor à minha volta – disse para o amigo.

Os lábios, muito finos, desenharam um sorriso de escárnio entre duas pequenas rugas nos cantos da boca.

O outro anuiu com um gesto de cabeça, levantando o copo de cerveja.

Não podia concordar mais…

O escritor, o grande escritor, antes de juntar as mãos pequeninas para as esfregar uma à outra, virou a sublime cabeça na direcção do solícito empregado. Por entre os dentes desalinhados sibilou, mais uma vez, a voz fininha como se estivesse a dar ordens a um cachorrinho:

Traga-me outro Chivas com duas pedras de gelo.

O cordeiro

Andei às voltas e não consegui encontrar o laboratório. Decidi entrar num restaurante. Talvez soubessem.

De pé, junto ao balcão, um cliente. Por trás, a jovem empregada que o atendia. Reparei numa senhora de meia-idade ao fundo. Dirigi-me a ela.

Boa tarde. Preciso apenas de uma informação. Pode indicar-me por favor onde fica o Lab?

Ela fixou-me um olhar vazio e não respondeu.

Nesse momento saiu da cozinha um homem idoso. Devia ser o marido. Repeti a pergunta.

Quer lamb? – disse.

Ouve mal, pensei.

Disse-lhe que não. Queria apenas saber onde ficava o lab. Voltou a responder-me com a mesma pergunta.

Em inglês, lab (diminutivo de laboratório) e lamb (cordeiro) são palavras homófonas e fáceis de confundir, sobretudo para quem não conhece bem a língua.

Desta vez, porém, a rapariga que servia o freguês interveio. Pareceu-me ser a filha do casal de emigrantes. Achei ser mais eficaz não usar o diminutivo.

Estou à procura do l-a-b-o-r-a-t-ó-r-i-o onde se tiram análises. Disseram-me que fica por aqui. Sabe onde é?

Ela olhou para mim como se eu tivesse dito um disparate. Frustrado, estava decidido a ir-me embora. Foi o cliente, porém, que ao ver-me enredado nesta confusão linguística e sem remédio me explicou onde era o local.

Respirei fundo ao abrir a porta. Saí para uma Primavera chuvosa mas já com a ternura de uma magnólia a florir no passeio.

A menina que envelheceu

Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.
Charles Bukowski

As mãos, pequenas, são frágeis como as de uma menina que parou de crescer logo a seguir à infância. Absorta, brinca com o guardanapo.

Após o jantar, esvaziou-se a sala. Só ela permanece à mesa, numa lassidão inescrutável.

Os vidros da janela estão húmidos da chuva. Está vento. Um frio desagradável mantém o jardim, para onde ela olha, vazio.

Estou à espera da minha mãe – diz-me em italiano. – Vem por ali –, e aponta o corredor que ladeia o prédio em frente.

Começa a escurecer nos seus olhos.

Acaba ali os dias, sentada numa cadeira de rodas e sob o enorme peso da velhice.

Quando ali chegou, passava o dia a andar pelos corredores de mala na mão. Depois as pernas abandonaram-na e a sua longevidade minguou-lhe o corpo e a mente. Mistura com frequência inglês e italiano numa dicotomia ininteligível.

Isabella guarda nas mãos o rumor de flores murchas.

Tento imaginar que história de vida se esconde na sua figura de sombra. Imóvel, alheia, absorta, é uma irradiação que subitamente perdeu o fulgor. Contra a janela que escurece, a silhueta dos seus cabelos brancos vai-se tornando mais visível contra o rubor do céu.

Não tardará a apagar-se de encontro ao vazio.

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