O triunfo da obscuridade

 

/Eduardo Bettencourt Pinto

 

Penso muitas vezes nesta frase, carregada de simbolismo, de um verso do poeta Mahmoud Darwish: “Não perguntámos por que razão o homem não nasce das árvores por forma a renascer na Primavera”.

A vida das árvores não é eterna, ao contrário da terra e das pedras. O poeta, o grande poeta, sabia isso. Darwish buscava a transformação do ser, uma génese renovada dentro dos limites da efemeridade que nos cerca desde que nascemos. Estamos condenados ao inevitável. Ele acreditava na necessidade da renovação do homem, tão vulnerável ao declínio físico e espiritual. Mahmoud Darwish desejava que o outono humano não fosse o prelúdio do seu fim mas o início de um novo ciclo existencial, limpo, puro, fresco e sem mácula. “As nossas ruínas estão adiante de nós e para trás estão os nossos absurdos objectivos” frisa lapidarmente no mesmo poema.

Chegámos ao declínio dos tempos? O materialismo desenfreado, a sede de exibição e protagonismo tão evidentes nas redes sociais, a decadência ética e moral dos líderes políticos (e até religiosos), a corrupção desenfreada, tanto em países desenvolvidos como nos do terceiro-mundo, desde ao nível governamental ao privado. Se tudo isso não bastasse, estamos agora perante o estranho e preocupante fenómeno que se levanta das massas alegremente radicais. Abraçadas com fervor a ideologias de direita, ressuscitam nacionalismos perversos e intolerantes inspirados nas páginas mais indignas da História. São elas, bem vistas as coisas, os responsáveis pela eleição de figuras indescritíveis e perigosas como Donald Trump, Putin, Robert Mugabe e tantos outros. Se tudo isto não indica um caminhar para o fim, demonstra pelo menos um enorme e preocupante retrocesso civilizacional e ideológico.

Como parar esta corrida para o absurdo? Está perto o abismo? Trata-se, claro, de uma questão que nos ultrapassa. Mas pelo menos sabemos que estamos demasiadamente divididos entre nós e os outros. No fundo, somos uma entidade egoísta, decadente e susceptível. Assusta-nos o que é diferente e que não vai ao encontro do nosso imaginário colectivo. Fazemos disso um argumento justificador da nossa incapacidade em aceitar e compreender os outros, aqueles que não se parecem connosco fisicamente, ou no vestir, na cor da pele, na pronúncia, na língua e nos costumes culturais.

Vivemos tempos de uma grande vulnerabilidade. O nosso planeta arde no Verão; no Inverno afoga-nos com chuvas diluviais. Atrás fica um cenário confrangedor de destruição e caos como aquele que aconteceu recentemente em Moçambique. À mistura, tremores de terra e tsunamis. Grande parte disto acontece como consequência da intervenção humana, da sua insensatez, da ambição desmedida e controladora de poderosos lóbis financeiros que vão sorrateiramente assenhorando-se e destruindo os nossos recursos naturais e alterando o curso natural do meio-ambiente. Um presidente desmiolado, como foi George Bush, pode, num repente, virar tudo isto do avesso. Se uma pedra na mão de um imbecil pode resultar numa calamidade, na de um artista uma obra de arte. Assim é a natureza humana. Ninguém a pode mudar. Líderes destes, pois, como Bush, megalómanos, acéfalos e moralmente ignóbeis, continuam a deixar atrás de si um incrível rasto de destruição numa euforia criminosa e sem consequências como foi a invasão do Iraque. “A guerra do Iraque não foi uma tragédia. Tem os contornos de um crime, resultado da incompetência boçal daqueles que orquestraram uma guerra de prevenção, compreensivelmente ilegal, numa atmosfera de pânico em sequência das ocorrências do 9/11”*. Li isto recentemente no The New York Times num texto de Andrew J. Bacevich.

A renovação do homem só pode acontecer com uma nova trajectória espiritual. A humanidade corre desenfreadamente para a escuridão. Estamos a ficar politicamente cegos. Não vemos onde se afundam os nossos sonhos, os nossos pés. Cobre-nos a neblina da indiferença. O que importa é o que se passa no ecrã dos telemóveis, à distância, alheios que estamos a tudo o que passa ao nosso redor. Passamos a viver de olhos postos no frenesi dos “likes”, nos relatos públicos onde choramos e rimos tão abertamente que não há mistério que reste de nós. Sentados à mesa do mundo virtual, damos conta do nosso apetite algures numa praia solar. Aos que estão perto, no entanto, não abrimos a porta da nossa casa.

Viva a impassível glória do absurdo.

* Tradução livre.

 

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2 pensamentos sobre “O triunfo da obscuridade

  1. Adorei ler a sua excelente reflexão tão real e cruel dos sinais dos tempos em que vivemos. Sem dúvida, um retrato fidedigno da nossa sociedade egocêntrica e com falência de humanismo.

  2. Mas que importante, bela, fortíssima, poética, clara e incisiva reflexão, querido Eduardo. O grande pensador e o grande poeta. O grande artigo de opinião. Chegas aos fundos de todos. Naturalizas, certamente, aqueles que deixaram de ser ou que pensaram ter deixado. Tudo sempre a sair de ti em harmonia. És terra a gemer e a produzir. Impossível não continuar-te.

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