Mês: Junho 2019

Uma voz entre a chuva

As pessoas falam
saem. As paredes ficam.
Cinquenta e seis poemas

Fernando Martinho Guimarães





/Eduardo Bettencourt Pinto

Os textos de Manuel Cabral, agora reunidos em livro e cujo título é África em mim, apareceram inicialmente na sua página do Facebook. Os seus amigos (suponho que a maioria deles angolanos) receberam-nos com aplauso. Foram muitos os comentários, afectuosos e encomiásticos, sugerindo que os publicasse em livro.

O desafio cresceu e tomou-se de urgências. Para MC foi um caminho novo a explorar. Estaria, contudo, o autor de textos tão honestamente íntimos e evocativos de um tempo angolano, marcante e indelével, preparado para enfrentar a edição das suas memórias? Teria, claro, de ter em conta que a publicação de um livro tem os seus riscos. Em tempos como estes, de padrinhos e madrinhas, amiguinhos e amiguinhas nos sítios certos, é difícil penetrar na difícil floresta da literatura sem qualquer tipo de apoio. A sua determinação, porém, mitigou-lhe os óbices: tratou ele mesmo da sua publicação.

África em mim, uma edição de autor, junta 15 textos, escorridos e memorialistas ao longo de 51 páginas que se leem de um fôlego. Se nos fica a sensação de ser pouco, não é por ser questionável a qualidade dos textos. São bem redigidos, de pulso seguro e atento às regras da língua. Aqui e ali notam-se os alicerces de um fulgor criativo que revela a desenvoltura semântica de quem exige das palavras algo mais do que um mero veículo de comunicação de factos e sentimentos. Exatamente por reunirem estas características (o gosto de narrar e a integridade da escrita), se tornam mais visíveis, mais aparentes, os traços da sua economia. Queremos ouvir com mais profundidade o rumor líquido das palavras, conhecer melhor o caráter e a alma daqueles que aparecem nestas páginas sob os traços coloridos do seu afeto, filtrados pela melancolia da sua irremediável ausência. O autor evoca-os com a serenidade e o calor de quem dignifica com o seu abraço emocionado aquelas figuras de relevo que povoaram o seu passado, mormente os pais no seu quotidiano no Sul de Angola, na luta pela vida, nada fácil. São pessoas humildes, honestas no seu modo de vida, retratadas no seu microcosmo com teor rural e em cujo mito africano se contextualiza a sua expansibilidade.

Manuel Cabral pertence à «última geração» de angolanos brancos, aquela que abraçou uma angolanidade muito mais abrangente do que as gerações anteriores, por via das vivências descomplexadas que se desenvolveram, desde a convivência nos bancos da escola entre brancos, negros e mestiços, até às posições profissionais. Não era uma situação ideal mas um princípio. Muito havia ainda por fazer. Convém no entanto recordar que estávamos sob o controlo de um regime prepotente, e que nos amordaçava a todos desde Lisboa cujos tentáculos abrangiam com furor todas as «províncias ultramarinas», consideradas, como se sabe, território nacional. Infelizmente, com o golpe de estado de Abril, veio o caos. Os responsáveis foram muitos, desde o Governo de transição em Portugal, que lavou as mãos nas águas sujas da História e abandonou Angola, vulnerável agora ao desencontro ideológico dos três movimentos, MPLA, UNITA e FNLA, que passaram a um regime de conflito com vista a obterem o poder sob o canto mortífero das armas. Violência generalizada, total impunidade nos crimes perpetrados, fuga em massa daqueles que podiam escapar ao clima de guerra, por terra, pontes aéreas e pelo mar, enquanto a influência estrangeira se ia fazendo notar com os seus conselheiros e estrategas de guerra, a soldados, armamento e o mais que a loucura desenfreada daqueles tempos foi capaz de engendrar.

Como tantos outros, MC, que nasceu no Sul de Angola, viu-se forçado a abandonar a terra natal em 15 de Agosto de 1975 em virtude da guerra civil, agora generalizada. Radicou-se com a família em Portugal continental, com excepção dos cinco anos que esteve nos Açores (Ponta Delgada), entre 1978 e 1983, exercendo o professorado à noite enquanto tirava a licenciatura na Universidade dos Açores. Foi professor durante 35 anos. Abandonou a profissão em 2012, desmotivado com o ensino por lhe parecer ter entrado em degradação. Há 44 anos que vive em Portugal. Abraçou o país como seu, integrou-se. No entanto, nunca perdeu o grau de intensidade em relação ao seu passado africano, recordado nestas páginas com a mais comovente eloquência e magnanimidade.

Filho de pais angolanos (o pai nasceu na Chibia em 1900 e a mãe no Lubango em 1913, ambos de raízes madeirenses), Manuel Cabral cresceu sob a influência telúrica e social angolana. Sensível e atento, empático e responsável, cedo compreendeu as dificuldades que os pais enfrentavam na luta diária por uma vida condigna e sustentada pelos inalienáveis valores da honestidade. Inteligente e sequioso pelo saber, agarrou-se aos estudos com determinação. Fez dos anos escolares uma passagem empenhada em crescer intelectualmente com vista ao seu enriquecimento pessoal.

A figura materna ocupa um polo luminoso, um halo central e emblemático na maneira como a recorda: «A minha mãe casou-se aos quinze anos de idade e teve dez filhos. Tinha olhos azuis, cor que nenhum filho herdou e que todos gostariam de ter, não por serem azuis mas por ser a cor dos seus olhos». A beleza destas palavras e destes sentimentos coadunam-se com o seu perfil de humanista, de órfão de pais e de uma terra que não viu, por infortúnio, ver crescer como um país.

O seu empenho nestes belos e sentidos textos é mais do que um exercício sentimental. É a afirmação serena de um passado quantas vezes hostilizado por vozes ignorantes e racistas e em cuja hostilidade se espraia a arrogância perante aquilo que se desconhece. O autor sabe isso, viveu essa experiência de acusações fúteis e insensíveis perante aqueles que partiram de África, não só traumatizados com todo o processo de descolonização que descambou no caos, mas também pela situação de penúria e injustiças várias em que caíram devido a tudo isso.

A sua nota introdutória é um pedido a todos aqueles que, como ele, nasceram em Angola: «Fica o desejo de que outras vozes se façam ouvir com outras histórias para que surja uma visão nova e mais justa sobre tempos ensombrados pelos condicionalismo da História».

Chegamos pois a uma altura cada vez mais pertinente para que se desmistifiquem equívocos ainda persistentes, e com a serenidade e o calor desta voz, agora a ouvir-se entre o sussurro sombrio dos dias.