A realidade da ficção

Photo by Ramesh Iyer on Unsplash

/Eduardo Bettencourt Pinto

Encontrei um escritor angolano que conheço numa velha e caótica estação de autocarros na Índia. Enfrentava, aflito, a imensa multidão encalorada. Forçou a passagem, irritado e a custo, por entre corpos renitentes e compactos. A tarde, de um calor insuportável, deixava no ar cintilantes partículas de pó. Os seus olhos abriram-se de espanto:

— Por aqui?

Estava de bermudas vermelhas, t-shirt com uma frase em inglês e sandálias. Transpirava muito. Aparentava o cansaço de um noctívago atrapalhado com a fulgurante luz do dia.

— Estou de passagem mas não sei onde estou. Saio daqui a pouco, espero — disse-lhe após um efusivo abraço.

— Também eu. Com tantas viagens, o mundo não se parece com lugar nenhum. É um ponto de partida. Volto já — respondeu.

Afastou-se com dificuldade sob o enorme peso da mochila.

Não voltou.

O meu conterrâneo acabou certamente apanhado pela estridente e esmagadora turba, desorientou-se, impotente ante essa força que parecia na iminência de querer tragá-lo a qualquer instante. Lugares como aquele onde se evidencia uma vertente inequivocamente paradoxal, não há meios-termos entre fantasia e realidade. Tudo se mistura nessa confusão de almas que se deslocam impulsionadas por um frenesi fluvial e sem qualquer vínculo emotivo, diga-se, onde uma ocorrência inusitada suscita o mesmo interesse que a rotina. Logo a seguir constatei esse facto.

Um macaco, desses que se penduram em cabos eléctricos em acrobacias estonteantes, corria à frente de um homem que o perseguia com uma vassoura. O bicho pelos vistos fumava pois tinha-lhe roubado um maço de cigarros. Ambos desapareceram na esquina sob uma pequena nuvem de pó. Ninguém lhes prestou atenção.

Minutos depois chegou o autocarro. Parecia-me urgente abandonar aquele lugar, ir para outro, longe, mesmo que fosse apenas um ponto sem referência no universo onírico.

Corri à frente de um pequeno grupo. Lutei, como pude, contra o absurdo para poder subir os degraus.

Sentei-me, por fim, afogueado, ao lado de um velho indiano de belas e longas barbas brancas. Exibia, na sua cabeça de ancião, um turbante de um amarelo intenso. Por cima,  na janela empoeirada e castigada pela sujidade da negligência, zunia uma gorda mosca. Não me senti incomodado. Queria simplesmente sair dali.

Em alguns lugares, a solidão tem muita gente à volta. Para solitários como eu, o ruído é uma espécie de afronta.

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