Categoria: Outro

Frank e Dan: A alegre e descomprometida viagem pela vida

glass/Eduardo Bettencourt Pinto

Fui ao aeroporto buscar o Frank. Chegou com o sorriso de um pescador feliz, a pele escurecida pelo sol da Austrália, sandálias de borracha, o longo cabelo grisalho apanhado numa trança e a camisa aberta como se tivesse aterrado na praia. Nos olhos, porém, dançavam ainda as sombras de uma palmeira.

– Não vens preparado para o Inverno – disse-lhe enquanto nos dirigíamos para o carro.

Frank é um optimista. Respondeu-me como tal:

– Eu sei. Não te preocupes: tenho algumas camisas. É apenas uma questão de vesti-las umas em cima das outras.

Estava vento. Um céu de nuvens cinzentas, baixas, capitulavam, exangues, sob a irremediável pressão de um horizonte de chumbo. Ao lado dele, casaco grosso, luvas e cachecol, eu parecia estar a acompanhar um frugal e austero ser de outro planeta.

Frank não é um contestatário. Tão-pouco desses sujeitos que julgam iludir o crepúsculo da vida actuando com a insensatez de adolescentes rebeldes, supondo retardarem assim o relógio biológico. Ele não vive à margem da sociedade. Trabalha, paga impostos. Socializa. Tem amigos. Pode, em princípio, ser tido como um romântico mas não é. Ser-lhe-ia impensável, por exemplo, observar o brilho das estrelas nas longas noites das suas vigílias, deitado placidamente na rede da sua preguiça, estrategicamente presa a duas palmeiras perto do mar. Nem o rumor marinho lhe suscita poemas platónicos. O seu modo de vida é o reflexo de uma filosofia própria, vincada pela intensa necessidade de ser livre. Vive sem protagonismos e exibições de carácter estapafúrdico. Tanto se lhe dá dormir numa cama confortável de um hotel de luxo, como num banco de aeroporto. Adormece com alma de viajante, tranquilo e feliz, indiferente aos olhares furtivos e julgadores dos inconsoláveis cínicos deste mundo. Defende que os preconceitos são essa coisa funesta que tanto oprimem quanto limitam o livre curso da espontaneidade. Frank é um pássaro sem asas. Voa no chão, entre o fulgor do sol e da lua.

Vai para a Austrália todos os Invernos. Cultiva legumes e vende-os nas feiras de sábado, tagarelando com os clientes, assobiando, o boné com a pala virada para a nuca, feliz da vida. Regressa a casa como os pragmáticos gansos canadianos, vindos das migrações anuais pelas terras quentes dos Estados Unidos para se refugiaram do frio. Como eles, Frank é um errante organizado. Mas não é o único que conheço.

Há anos atrás, em Puerto Vallarta, conheci um americano que partilha, de uma certa maneira, o mesmo estilo de vida do Frank.

Estávamos alojados no mesmo hostel, um lugar modesto perto do centro. Apareceu à mesa do pequeno-almoço muito solto nos seus largos calções vermelhos, caídos sobre os joelhos, T-shirt sem mangas, o cabelo loiro, comprido, a escorrer-lhe pelas costas numa linha fina e cintilante. Cordial, prestável e muito educado, o Daniel salientava-se dos restantes hóspedes pela sua afabilidade e gosto em conversar.

Almoçámos uma ocasião, e por acaso, num restaurante perto da catedral. Observava as pombas ociosas através dos vidros quando uma voz me acordou da minha letargia. Era o Daniel.

– Posso sentar-me?

O restaurante fervilhava com turistas e clientes locais num assalto contínuo às mesas. A televisão, uma caixa ruidosa, atirava-nos aos ouvidos o tédio e a rouquidão de vozes ininteligíveis. Hora de bulício e telenovelas. Olhares mexicanos, virados para o tecto, absorviam-nas com indecifrável interesse. Em qualquer lugar do mundo, a noite de vidas apagadas parece ganhar claridade e objectivo na ilusão de outras vidas, mesmo que fictícias e irreais.

Alheio a tudo isso, Dan recebeu com renitência o cardápio que a jovem empregada lhe estendeu. Limpou-o com repulsa ao guardanapo.

– Se não fosse pela inconveniência, passava a andar de luvas de borracha. O mundo é uma coisa suja. Detesto a sensação do suor dos outros nas coisas.

Achei a observação estranha. A ementa, impressa a letra de computador e protegida do contínuo manuseamento público por uma capa transparente de plástico, não suscitava reservas quanto à sua limpeza. Daniel, no entanto, parecia ter olhos microscópicos. Sondava os outros com a insistência febril de um nefelibata em devaneio delirante, à cata de micróbios e de outras bactérias nefastas que o pudessem eventualmente molestar. Recusava apertos de mão, efusivos ou de circunstância, guardando sempre alguma distância entre ele e os outros.

Daniel vivia na Califórnia numa velha carrinha. Andava de lugar em lugar como o vento, sustentando-se de biscates. Pela tarde estacionava-a na praia para desfrutar do mar e do horizonte aberto do céu.

Volvidos alguns anos sobre esse encontro, constato que Daniel continua o mesmo. Leio com frequência os seus comentários nas redes sociais, quase sempre acompanhados de fotografias. A sua irreverência mantém-se intacta como naquela tarde sem nuvens de Puerto Vallarta, o seu olhar de pombo a voar sobre a parca lista do almoço, testa franzida, a luz da rua a bater-lhe de lado e a deixar no chão uma sombra cálida e insondável.

Tanto o Frank como o Daniel não têm vidas extraordinárias. Nem as suas opções se coadunam com os valores e a ética da maioria de nós. Convenhamos que o ser humano não é uma rocha no meio do mar. Precisamos uns dos outros para nos sentirmos vivos, menos sós, para dar e receber afecto, crescer intelectualmente. No entanto, essa espécie de irreverência que ambos praticam tem o seu lado poético. Alimenta-se de um minimalismo existencial sem redes nem preocupações atávicas, como uma planta selvagem que surge, solitária, na imensa paisagem dos dias e que se mantém intacta e firme até ao fim.

Nem todos querem seguir o modelo de existência que lhes foi dado à nascença. Nem todos vivem presos à parede ancestral, fechados, quantas vezes, na melancolia daquilo que é confortável e previsível. O desejo de aventura sobrepõe-se a tudo. Arrasta-os para a estrada, convida-os para o caminho sinuoso do mistério numa entrega absoluta, total, insuprimível.

Seguir pela cauda do vento desprovido de bússola, e ao sabor do imprevisto, poderá ser visto como uma forma egoísta de não assumir quaisquer responsabilidades afectivas. Mas quem pode descodificar a insaciável necessidade do ser humano em tentar, na medida da sua visão da vida, reinventar a efemeridade? Talvez seja isso o que o Frank e o Daniel nos queiram demonstrar.

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Eufeme, com o calor do lume

eufeme-2-capa_2/Eduardo Bettencourt Pinto

Esta Eufeme a que me refiro não é a deusa da mitologia grega. Trata-se de uma revista de poesia que se publica no Porto, cujo número 2 saiu em Janeiro de 2017. O editor e coordenador é o poeta Sérgio Ninguém. Estão aqui representados dezassete poetas. A saber, e por ordem alfabética: Amadeu Baptista, Aram Saroyan (americano, traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho), Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Quina, Filipa Leal, Francisco Cardo, João Rasteiro, Jorge Batista de Figueiredo, José Carlos Costa Marques, Luís Quintais, Miguel-Manso, Nuno Dempster, Pedro Jubilot, Rafael Courtoisie (uruguaio, traduzido por Francisco José Craveiro de Carvalho), Rosa Alice Branco, Rui Tinoco e Sandra Costa.

Numa altura em que a poesia anda descalça pelo alheamento das modas literárias vigentes, tão viradas para a sordidez de um mercado quantas vezes imediatista e movido a bolhas de ar, uma revista deste calibre, com esta elevada qualidade estética e de conteúdo, é motivo para uma efusiva celebração. Desde a escolha do papel, um regalo nas mãos, ao grafismo, sóbrio e de bom gosto, tem-se consciência de se estar perante um objecto de qualidade e que nos estimula os sentidos: Arte na apresentação, arte igualmente nos conteúdos.

Uma iniciativa destas, sobretudo nos tempos que correm, de maus ventos económicos, é um arrojo de grandes proporções. Só um espírito livre, empenhado e com elevado sentido de missão em prol da poesia, consegue efectivamente dar corpo a um projecto desta envergadura. As modas estão contra, os muros dos lobbies são altos e de renhida resistência, os tiques proliferam sob a cantata desordenada do poder de quem impõe as regras do mercado.  Eufeme respira poesia de página a página na solitária e nobre missão de divulgar poetas não só de Portugal como estrangeiros, num convívio salutar e aberto, cuja faceta é a de nos oferecer perspectivas e sensibilidades várias, numa partilha de elevada qualidade.

Longe vão os anos da utopia. Houve um tempo, um tempo luminoso em que se davam as mãos, a poesia saía à rua aos gritos e rolava livre pela relva das cidades e pela luz dos campos. Portugal, nos anos setenta, explodia de vitalidade. Era um país de poetas, e foram eles aliás que construíram em uníssono uma nova madrugada. Múltiplas e significantes eram as iniciativas editoriais. Foram os anos da minha juventude em que observei a solidariedade converter um pequeno país europeu numa chama de alegria e promessa.  Veio entretanto a máquina do consumismo desenfreado estabelecer novas regras, corromper o espírito de um tempo que vingava pelo seu dinamismo, abnegação e sentido de grupo. O individualismo, o culto da personalidade, a morte das ideologias, todo um leque de nefastos tiques engendraram este circuito (circo) de comportamentos cuja essência rodopia em volta do umbigo, acabando por minar o que de bom existia no mundo das letras.

O lugar da poesia é de facto o coração do homem. Só alguém com a sensibilidade de Sérgio Ninguém, também ele poeta de elevados recursos, poderia de facto «atirar-se» ao mundo com tanta abnegação, com tanto empenhamento. É um esforço admirável, titânico e que nos comove pelo seu empenhamento, altruísmo e generosidade. Um projecto que merece todo o nosso aplauso e apoio.

Sítio da revista: eufeme.weebly.com

Plantando flores no tempo

nepal«Quanto mais areia escapar da ampulheta da nossa vida, mais fácil será ver através dela.»
Jean-Paul Sartre

/Eduardo Bettencourt Pinto

O ser humano é um sopro de terra em movimento. O seu destino a lancinante expressão da efemeridade. Penso nisto e nas mãos de Rosa, a minha vizinha. São pequenas e frágeis como pedaços de brisa suavizando uma flor. A pele, enrugada, fina e transparente, evidencia as veias, rios sinuosos, muito azuis e antigos. São a longa história da sua idade.

Rosa agarra-se firmemente ao andarilho. Fecha a porta da rua com a prudência serena de uma anciã pragmática, e sai de óculos escuros para um luminoso dia de Junho. Cada passo é um esforçado exercício de paciência, inesgotável e catártico esforço neste mundo. Rosa enfrenta a languidez do corpo com espírito combativo. Mas os achaques são muitos: doem-lhe os ossos, leves e delicados como os dos pássaros; doem-lhe a alma, o coração, os pulmões, as artérias. Mas pior do que tudo é a enorme sombra que vai escurecendo a sua memória. Não vem de uma árvore imensa mas de vidas que amou e se foram e a deixaram presa a uma insaciável melancolia.

A manhã é quente e Rosa apressa-se. Na curva acentuada dos seus ombros dardeja, diáfana, uma chuva de luz. Parece arrastá-la para uma zona irreal. Que divindade poética lhe traça a silhueta com pinceladas abstractas até se perder na distância? A sua figura vai diluindo-se como o golpe de vento que arrasa pegadas na areia. Fica a sua claridade. O sol emana de seres assim, únicos. Acompanha-os mesmo na grande, imensa noite do silêncio porque detêm um modo de estar neste mundo mais perto das estrelas.
Entretanto caíram quatro folhas do calendário e rolaram pelo chão numa dança inconsequente. A terra encheu-se de magnéticas ressonâncias num descanso de raízes. A luz da madrugada, austera, talhou no horizonte uma máscara exangue. Aos poucos, leve como o pó dos mitos, imperceptível no sussurro de uma pétala em declínio, veio o Outono. Instalou-se com as suas roupagens, os seus ventos e chuvas, encurtou os dias e alongou as noites. Rosa começou a acender a luz de casa mais cedo, os seus passos adormecidos na fragilidade, roendo silêncios, conquistando pequenas distâncias.
Mas a voz, sim, a voz, implora um espaço no mundo. Ouve mal, é certo, por isso fala muito alto ao telefone. As janelas abertas acolhem as suas ondas roucas. Chega-me à sala um dédalo sonoro ininteligível enquanto uma borboleta branca sobrevoa as plantas do canteiro num voo cristalino e gracioso.

Desta vez, porém, é o meu telefone que toca. Não posso atender logo. Noto o seu nome no mostrador. Minutos depois ligo-lhe.

— Continua interessado nos slides do Nepal?

Subimos ao seu apartamento. Rosa recebe-nos com amabilidade e cortesia. É uma senhora frágil, transparente e cativante. Do seu olhar goteja uma iridescência invernal. Move-se com a energia de um espírito indomável, embora o seu corpo acuse o natural declínio da longevidade. A sala encontra-se preparada com o projector, a caixa de slides e o ecrã. Insiste no chá. Prepara-o e deixa-o numa bandeja na mesinha da sala.
Nesta cidade canadiana Novembro é um mês de sombras antecipadas. Em poucos minutos a sala escurece. As imagens dos slides renovam-se sob o clique do comando. São recordações do Nepal. Rosa esteve lá dois anos. Identificou-se com o país após a primeira visita. Rolam imagens dos seus percursos pedestres pelas montanhas do Nepal, por trilhos e estradas de pó. Acompanhavam-na seis ajudantes cuja função era levar os mantimentos e toda a logística necessária para mais de um mês. Os cenários que passam no ecrã são tranquilos. De vez em quando a objectiva regista rostos serenos e escuros. São figuras de pedra, estáticas, calcinadas sob o bronze dos ventos, entregues agora a uma memória translúcida e que nos invade os sentidos. Às vezes passavam por eles homens a correr, diz Rosa. Assim atravessavam distâncias diárias, pés descalços sobre pedra e pó, até chegarem ao outro lado das suas vidas.

O que prende uma pessoa a um lugar? Rosa não sabe explicar. Há coisas que habitam os sentidos, pertencem a um domínio secreto, muito dentro de nós. Os cheiros, por exemplo, instigam lembranças, evocam referências emocionais, prendem-nos a recordações nem sempre identificáveis. O Nepal, com a sua pobreza secular, o seu exotismo e sentido de aventura, despertaram-lhe uma necessidade muito grande de se estabelecer lá, mesmo que provisoriamente, no seu caso dois anos. Criou laços, viajou a pé, dormiu sob céu aberto contando as estrelas até receber a madrugada nos seus olhos cansados, abraçou a chuva, o sol e o vento, o calor e o frio. Sentada na cadeira, premindo o botão do comando enquanto os slides correm no ecrã, fico com a impressão de que Rosa vê desfilar, numa tarde de Novembro, grande parte da sua vida.

Sozinha e sem família no Canadá, Rosa vai-se desfazendo aos poucos das suas coisas. Quando partir para a ausência derradeira, não quer deixar aos outros a responsabilidade dos seus pertences. O que lhe custou mais foi separar-se dos livros. Sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, passou por todas as vicissitudes que advieram de um país totalmente destruído. Os seus livros foram parar à lareira e ao fogão. «Foi como se me tivessem rasgado por dentro» disse, emocionada com essa lembrança. Desta vez, porém, doou-os a uma biblioteca ligada a uma organização do Nepal, o que atenuou um pouco a mágoa de ter de se desfazer deles.

Saio da sua casa com a impressão de ter viajado no tempo de uma vida comprometida com as suas recordações mais profundas. É um privilégio nostálgico o que me foi dado experimentar. Uma espécie de canção de adeus nos olhos de quem viveu muito e agora se prepara para viajar, sem peso e sem memórias, pelo infinito. «O coração de uma mulher é um continente, é preciso uma vida inteira para descobri-lo», afirmou recentemente numa entrevista Adonis, o poeta sírio. Eu não poderia estar mais de acordo.

O Pai Natal da despensa

O Paportao-com-nevei Natal está de costas viradas para a janela. Usa óculos de aros redondos, vê mal, coitado, sobretudo agora pelo Natal. O mundo fica tão escuro aqui, os dias curtos, as noites tão longas. Com a vista assim, cansada, quase fria como o olhar de uma ave perdida no meio do Inverno, pouco ou nada se pode esperar dele. Olha para mim e não me vê. Estou sentado diante dele, quieto, atento à sua imobilidade ancestral. Ele é a única presença que ilumina esta sala cheia de livros. As suas barbas, imensas, caídas sobre o velho casaco, dão-lhe um ar de ancião triste e desolado. Há anos que traz às costas um saco cheio de prendas. Habitava a casa na outra vida que tive. Os meninos eram pequenos, corriam para os seus braços tensos com a alegria que só a inocência proporciona.
Tirei ontem o Pai Natal da despensa. Esteve lá escondido todo o ano à espera de Dezembro. Apanhou-me desprevenido, o tempo correu tão depressa! Ainda há dias eu era da idade dos meus filhos quando eram pequenos. De repente a casa não é a mesma, eu sou a minha família pelo Natal. Os amigos espalham cartazes pelo facebook. O tempo e o silêncio esmagam a memória das coisas, deixam cair por terra as suas vozes.
O olhar sem vida do Pai Natal cruza a sala. Não sei como atravessar esse lago aberto na escuridão, essa fenda entre mim e o vazio.

A importância de ser importante

“Long ago one of the Cynic philosophers strutted through the streets of Athens in a torn mantle to make himself admired by everyone by displaying his contempt for convention. One day Socrates met him and said: ‘I see your vanity through the hole in your mantle.’ Your dirt too, sir, is vanity, and your vanity is dirty.”
― Milan Kundera, Farewell Waltz

/Eduardo Bettencourt Pinto
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A vaidade está mais próxima do ridículo do que o riso do humor. Em certas situações, porém, juntam-se estas quatro variantes.

«Aldrubias», por exemplo, era um rapazote luandense muito pedante cujas idiossincrasias passavam por várias metamorfoses. Mudava segundo as circunstâncias sociais, dominado pelo ambiente. Na escola actuava de uma certa maneira. Na praia ou na rua, de outra. Do seu comportamento em casa, convenhamos, não havia informações. Circulavam umas nuvenzitas pouco sólidas, mais especulativas do que reais.

Podíamos considerá-lo um camaleão. E, nessa qualidade, as suas cores preferidas eram o amarelo e o vermelho. Davam mais nas vistas.

Atirava as pernas para a frente num passo de general convicto, intangível, queixo levantado, as bainhas das calças de boca-de-sino num baile frenético sobre os sapatos pontiagudos, costas erectas, garbosas, cabelo escuro, tão bem tratado que parecia uma permanente copiada a uma tia velhinha. As meninas suspiravam, nervosas, à sua passagem. Os rapazes odiavam-no com o cinismo do sorriso despeitado e palmadinhas de Judas nas costas. Ninguém, nem mesmo os professores, gozavam de tanto prestígio. Nos corredores, ao cruzarem-se com ele, desviavam-se. Nas aulas, intimidados pela sua auréola, evitavam questionar-lhe a inteligência perante os outros. No fundo, «Aldrubias» comandava as tropas como queria, vergadas sob o peso da sua enorme superioridade. Com as suas lendárias histórias de grandeza, não mentia, manipulava a verdade.

Podia ter sido modelo, é claro. Tinha estampa, garbo, altura. O sexo oposto considerava-o bonito, uma brasa, um borracho, um pão como dizem os brasileiros. O que abalou a sua reputação? A inabilidade em manter o protagonismo intocável, vivo, interessante? Ou o absurdo da sua condição de mentiroso para se engrandecer perante os outros?

«Aldrubias» chegava à escola num Mercedes preto. Antes de fechar a porta, olhava em redor. Se via alguém, bradava para o motorista as horas a que este o devia ir buscar. O carro desaparecia, lento, na estrada. Sem olhar para trás, sem um aceno de despedida, «Aldrubias» dirigia-se para o edifício da escola com a altivez de quem ocupava um cargo importante.

Este cenário durou algum tempo. Um dia, porém, o seu firmamento foi posto em causa pelo tom exagerado com que gritou as ordens do costume. O motorista, apercebendo-se do logro de que estava a ser vítima, atirou o chapéu com veemência para o tablier e saiu do carro. Ordenou-lhe que esperasse.

Era um sujeito de estatura média, calças pretas e camisa branca em cujo peito ondeava, sob a claridade matinal, a timidez de uma gravata preta. Parecia uma tempestade de areia. Os seus pés não pisavam o chão, espetavam a terra como as esporas de um galo de combate. Vinha investido de uma energia eléctrica tal que o seu o rosto se tornou incandescente. «Aldrúbias», assustado, deixou cair a pasta com os livros. Nunca vira o pai assim.

Ainda levantou o braço para se defender mas foi logo sacudido por duas violentas bofetadas, tão sonoras que deitaram por terra a sua reputação de menino rico com chauffeur privado.

– Daqui por diante andas a pé, seu palerma!

Mesmo perante aquela humilhação, «Aldrúbias» não podia arrastar-se na penumbra como uma osga assustada. Recolheu os livros e assoprou o pó mal o carro se pôs em movimento. Sentia as faces quentes e o orgulho assaltado por uma grande afronta. Felizmente só as duas raparigas tinham assistido à cena. Seria fácil arranjar uma explicação. Poderia dizer-lhes, por exemplo, que se incompatibilizara com o motorista por uma questão de saias, e que o tinha despedido. Daí a confrontação. Era importante naquele momento recuperar a compostura. Isso sim. Quanto ao pai, ver-se-ia depois. Fintava sempre o velho com uma pinta extraordinária.

A genética de um carteirista

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Foto:Eduardo B. Pinto

/Eduardo Bettencourt Pinto

Abril? Maio? O mês é irrelevante. A luz de Lisboa é quase a mesma, branca, macia, aveludada. Quando desce, porém, pelo fulgor da manhã, parece um sussurro de amor, uma pomba em pleno voo. Espalha–se pela cidade como uma chuva de cristais, arrastando consigo um breve, fino odor a limão. É nesta luz que os poetas soltam as suas aves mais íntimas.

Mas os seres não habitam a cidade da mesma maneira. Uns descem por ela com os sentidos postos em transgressões. São os assaltantes, meros profissionais de um modo de vida sem compromissos com a sociedade, obrigações às Finanças, legitimidade. Talvez com o senhorio, caso não tenham casa própria. Ou com o merceeiro. Apresentam-se lavados, escovados, o ar inocente de um anjo perdido na cidade branca, os sapatos meticulosamente lustrados, barba feita, unhas aparadas, sóbrias, pele das mãos lisas, brilhantes como maçãs. Elas, as mãos, conquistam o inexequível. O prodígio. Aventuram-se nos túneis dos bolsos alheios, ávidas, precisas, silenciosas. E assim alcançam o paraíso.

Alguns possuem aquele ar cinematográfico de James Bond, ou o rosto rígido de James Dean, quero dizer, olhar de metal por trás dos óculos escuros. Mas o pescoço (ao contrário dos actores), embora tenso é surpreendentemente flexível como o de um pato. Não mudam de cor como os camaleões, isso é domínio dos políticos ou dos vendedores de carros usados. Eles são homens práticos, activos. Não cultivam a retórica como modo de vida. São aventureiros de bairro, desses que povoam romances de cordel. Avançam pelos dias com passinhos de corvo, asas amplas, olhar clínico e paciente. Predadores citadinos, dispersam-se por espaços públicos disfarçados de cavalheiros humildes, chefes de família responsáveis, sem aparato nas cores das camisas, ora brancas, imaculadas e sem vincos passadas com esmero, ora bege,  castanho-claro, amarelo discreto. Gostam de passar despercebidos. Quem os vê admira neles o porte humilde, secreto embora, do homem comum que habita a cidade com um perfil de honestidade despido de suspeita. Não se comportam, por exemplo, como os chulos, cheios de anéis, colares de oiro, óculos Rayban, sapatos de marca e cigarro ao canto da boca. Não. Eles, os carteiristas de Lisboa, são os mais honestos profissionais da cidade. As suas qualidades e o seu profissionalismo alcançam um registo de integridade inigualável, se não impossível, de alcançar por qualquer profissional. Não são volúveis. São clínicos, dedicados, eficientes, inventivos. Fluidos. Vêm dotados, desde a nascença, de uma predisposição genética para a arte.

O cavalheiro que se sentou à nossa mesa, e sem ter sido convidado, tinha esse perfil. Surgiu como num golpe de magia, como se tivesse caído de um espaço invisível. De repente, imperceptível e com a leveza de uma pluma, ei-lo sentado à nossa mesa e de costas viradas para nós. Era um homem novo, tão escanhoado que a sua face, lisa e brilhante, só podia ser comparada à frescura de um bebé recém-nascido. Parecia um monhé. Não o das cobras, como no belo poema do poeta moçambicano Rui Knopfli. Mas daqueles homens sombrios, sobrancelhas cerradas e que recordavam personagens de policiais, calças de terylene, camisa aos quadradinhos, olhar mortiço, lânguido, perscrutador. Atirou, certeiro (sem que tivéssemos notado), o casaco para as costas da cadeira do meu lado direito onde eu tinha a máquina fotográfica. O golpe era previsível, simples, praticável. Fácil. Eu era o incauto, de pensamentos a navegarem noutro mundo.

Ainda pensei em cumprimentá-lo pela audácia. Apresentar-me de aperto de mão. Convidá-lo para um aperitivo. Afinal, a tarde de Lisboa estava magnífica e uma brisa fresca sacudia o toldo branco da esplanada. As gaivotas espalhavam-se em pontinhos claros ao fundo de um céu muito azul. Não me pareceu boa ideia, porém. Um artista não gosta que lhe descubram os segredos. Sobretudo que os revelem. Perde a originalidade. O valor. Antes que fosse tarde, peguei na máquina. Ele não teria a coragem de a tirar do meu colo. Seria um golpe fatal, demasiado arriscado. Deixou-se ficar muito tranquilo, a admirar a paisagem. Impávido.

Quando chamei a empregada para pedir a conta, já ele se tinha levantado e desaparecido por entre a multidão.

Se o inesperado, surpreendente visitante tivesse alcançado o que pretendia, levaria consigo mais do que um bom jantar. Teria, no entanto, consciência do real valor do roubo? Certamente poderia contar com a seriedade dos seus “contactos” no telemóvel. Bastava colocar um dedo no visor e logo lhe apareceria o nome de um amigalhaço, pronto a avançar-lhe uns 100 euros pela coisa. Nada de perguntas chatas, indiscretas. No âmbito da ética actual o porreirismo é uma forma elevada de cidadania. Há amigos por toda a parte. Do peito ou sem peito conforme interpretamos os meandros das redes sociais. Cem euros? Por que não? E lá iria ele, todo sorrisos, a massa no bolso. Talvez a assobiar. Talvez a tentar um pontapé num gato qualquer que lhe saltasse ao caminho. Nada de remorsos. Que se lixem os turistas, pensaria ele, essa corja que inunda a cidade só para tomar os copos e aborrecer os locais.

José dos Montes

INVERNO -1
 

Fotografia: Eduardo Bettencourt Pinto

 

/Eduardo Bettencourt Pinto

 

Tem a fúria do fim da idade. Os seus olhos piscam, pouco vêem. Conseguem, talvez, distinguir a sombra de cada forma que observa, o que resta de um gesto, de uma expressão. O bordão, no qual se apoia, é uma espada, uma perna implacável e dura, o coice e o golpe que surpreendem o mundo. Fala da morte como se fosse uma espécie de vida. Das árvores, porém, guarda as achas de um amor infeliz.

Perdeu-se no tempo a amar a terra com as mãos. Dedicou-lhe o outono da sua vida e toda a luz dos seus olhos. São ásperas agora as suas palavras, instâncias peregrinas do ódio de um homem que as atira ao ar quando a lâmina da efemeridade lhe atravessa, implacável, o coração.

José dos Montes, que acordava com os galos e o rumor bom de uma brisa macia nas oliveiras do quintal, levanta-se agora do seu leito com a melancolia e a solidão do proscrito, consciente do seu degredo. O seu corpo tornou-se uma prisão. Não se consegue evadir. Altos são os muros, inquebráveis as grades das suas noites. Os pensamentos, que foram águias soltas pelos campos, regressaram, vencidas, aos seus ninhos.

José habita a casa como um reduto, como se mil pombas de susto levantassem voo com a sua presença. Atravessa-a todos os dias com a cautela de quem se aventura numa floresta pela primeira vez. Assalta-o o medo dos seus próprios fantasmas, a lembrança de um rosto que o ajudou a construir o mundo, o sorriso cheio de juventude reflectido, feliz, nos vidros da janela. Quando se afasta para o quintal, leva nos passos arrastados uma casa em ruínas.

Os dias crescem, banham as suas costas, curvadas sob os lampejos do Verão. Há um brilho triste no seu corpo frágil e vulnerável, e no jeito como se entrega ao grande vazio da sua alma. Varre a entrada da casa com o vagar de um suspiro. Sabe, no mais fundo de si, que o tempo o traiu: levou-lhe o vigor do corpo, a firmeza dos braços, o orgulho de se olhar ao espelho e ver um homem de pé com todo o gáudio da sua estirpe. Varre adiante de si, com uma enorme vassoura de giesta, os minutos e os segundos dos seus dias. Entra a noite e ele continua a limpar o silêncio que o enreda da cabeça aos pés. Às vezes pensa, aflito, que a eternidade é esse jogo de braços a que se entrega todos os dias, o atirar para trás de si o pó da memória, às vezes tão pesado como um sonho desfeito.