Categoria: Texto

*África?

Rodo a chave do meu quarto e logo o cheiro das goiabas. Fecho a porta. O sol da tarde desaparece por trás de mim.

Vou directo à pequena e humilde mesa, a um canto. A fruta repousa, num silêncio de perfume e memória, mesmo ao lado do meu portátil. Junto, o  livro de poemas de Jennifer Grotz, The Needle.

Ligo o ar-condicionado, descalço as sandálias e estiro-me na cama. Sinto-me no paraíso.

Tenho as cortinas fechadas e a luz do teto acesa. Uma osga ri, alto e inebriada, enquanto desliza na parede. Não estou sozinho. Esta presença inesperada deixa-me feliz e faz-me sentir acompanhado.

Pela manhã vagueei pela praça, entre a beatitude de rostos humildes e vozes solícitas. O cheiro do ar fez-me lembrar África. As cores, todas as cores, eram tão intensas que  reverberavam de vida e energia.

Passei depois o resto do dia junto ao mar e sob a fresca sombra de uma palmeira.

Almocei já um pouco tarde. O peixe, fabuloso, recordou-me um restaurante de S. Jorge de cujo nome não me recordo. Foi há tanto tempo, que um dia se lá voltar já não darei com ele.

Já a caminho do hotel, parei numa esplanada. Debati-me com três margaritas, geladíssimas. No meio da rua a luz dançava como uma criança.

No momento em que pagava, a empregada, de olhos cor de esmeralda:

“Conheço-o? A sua cara não me é estranha…”

“Espero bem que não”, disse-lhe, fazendo um gesto a rejeitar o troco. Saí de lá o mais depressa que pude.

Eu estava, estou aqui, para regressar a África. O passado já me interessa muito pouco.

É com este pensamento que prefiro adormecer.

*(Extrato de um romance em curso).

As palavras cantam no mar

A casa branca, os passos leves de um gato sobre o muro, o mar ao fundo.  A secretária de pinho velho onde as palavras correm sob o pulso, e esse vulto que és tu, outra vez, deixando na página as sementes que esvoaçam como papagaios de papel.

Passou o dia e um relâmpago caiu rente aos símbolos da tua vida. A noite sobrevoa os barcos, a funda, inominável noite, enquanto uma guitarra enche-se de vozes e as cigarras cantam entre o estertor de pés descalços.

Cai uma folha das tuas mãos e o muro brilha sob o luar. «És tão mediterrânico nessas palavras, ó filho de África!», ouves dizer dentro de ti.

Sim.

Uma casa é o país de um homem; as suas palavras as aves todas da sua história.

Bebes nos mitos os lábios húmidos de uma mulher, o vinho que sangra de canecas de barro, a cintilante loucura de um corpo sob o chuveiro entre palmeiras altas e esguias, tanto sol a dançar no pátio que entretanto escureceu.

Como fugir do mar, ó bardo!, quando as pedras ardem de silêncio? Como explicas essa orla de lume em cada dedo enquanto buscas  nas palavras o incêndio do desejo na escuridão da terra?

Papéis velhos, África e Chopin

Limpo o meu escritório. Estou perante o desafio de tinta velha em papéis antigos, rasgos de melancolia entre interstícios de pó acavalados por todo o lado. Para quê tudo isto? Quando saí de Angola, levava apenas as sandálias da minha infância (que perdi algures), um álbum de fotografias e as poucas roupas daqueles últimos e olvidáveis dias de Luanda. É certo que a memória delimitava as fronteiras de um país numa alvorada incendiada pela guerra.  Levava comigo, contudo, vinte anos de utopias que eram a idade com que embarquei numa noite triste, muito triste, a caminho da Rhodésia.

Um homem não precisa de muito, quando tem tudo: o amor de uma mulher, um poema entre os dedos e o rosto da claridade a beijá-lo por dentro.

Não preciso destes papéis velhos. Preciso, sim, de um rio, o mais antigo, quando o tempo ainda não existia e as aves cantavam entre o cálido fervor das palmeiras. Sim, nesse tempo o meu pai era um deus de sol e a minha mãe a estrela mais branca da terra. Os meus irmãos, esses, eram quatro braços de água e alegria.

Cresci tanto, meu Deus!, que já não reconheço nos cães vadios o latido de memórias distantes. Sou a vírgula, a última, antes do voltar da página.

Mas, enfim, para aonde vou com isto? Ora.

Pego num papel, e leio:

“Contudo amo-te porque não existes, sombra, néctar de maçã, o mar entre as mãos separando os dias”.

Pois. Rasgo-o e deito-o no lixo.

Aqui fica,  com um pedaço de noite. E o Nocturno op 9. No. 2 em E Flat de Chopin.

Café

Entram e saem do café rostos tocados pela cor da noite. Uma mão poisa no meu ombro como uma gaivota. Não é ninguém mas o Tempo, esse túnel por onde se escoam todos os domínios da nossa fragilidade.

Estou aqui e estarei. Estou sentado na pedra da minha noite num café barulhento. Tenho comigo o meu computador e toda a minha vida.

Escrevo rente ao caos. Quero compreender as palavras, aquelas que voam de mim e deixam um ressoo de viagem nos meus dedos.

Estou nesta cidade que se cruza comigo nos seus domínios mais sombrios. Penso no cheiro das goiabas – o sul era assim, um odor de alegria tão breve como um pingo de água.

Penso num beijo perto do mar porque escrevo.  Penso e sinto os rios de ser homem enquanto todos os estranhos do mundo bebem café ao meu redor e se afastam devagar no silêncio das minhas palavras.

José Saramago, Moçambique e eu

Na secção de livros do jornal The Globe and Mail, de 18 de Setembro de 2010, vem uma recensão encomiástica ao livro de José Saramago, The Elephante’s Journey. O texto é de Janice Kulyk Keefer, escritora e professora de inglês na Universidade de Guelph, Ontário, Canadá.

Gostei da surpresa. No entanto, não me admirou a presença do Nobel português no mais influente jornal canadiano. Habituei-me a encontrar livros seus um pouco por todo o lado – em aeroportos dos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, bem como em livrarias de Vancouver e Toronto. Até em S. José, Costa Rica, há uns anos atrás, vi livros seus em espanhol. Encontrava-me num olvidável centro comercial numa tarde ociosa e cinzenta, um dia após a chegada, quando dei com a livraria.

Saramago é de facto um escritor à escala internacional. Uma coisa é ter um ou mais livros traduzidos numa certa língua; outra, ver a sua obra reconhecida nos países (ou país) para os quais foram traduzidos. Já conversei com académicos canadianos que me falaram dele com admiração. Mostraram igual apreço por Eça de Queiroz e Fernando Pessoa.

Curiosamente, neste Verão, num alfarrabista de Burnaby, tive nas mãos uma edição em inglês de Os Maias. Encontrei-o na secção dos clássicos mundiais. Estremeci com o achado pelo grande afecto que tenho pela minha língua. Suponho que um estrangeiro teria o mesmo sentimento se encontrasse, por exemplo, num alfarrabista de Lisboa, um livro do seu escritor favorito traduzido para português.

Outro autor português contemporâneo que se tem vindo a salientar fora do país é António Lobo Antunes. Já o vi mencionado em publicações literárias no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e México. O Portugal literário vai crescendo muito para além das suas fronteiras físicas e linguísticas. Depois há os mais novos, portugueses e lusófonos, como Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Escritores credenciados em Portugal e na lusofonia e já com certa visibilidade no estrangeiro, sobretudo na Europa.

O venerável Paulo Coelho (goste-se ou não dele) é, de todos, o autor de língua portuguesa mais divulgado à escala universal. O escritor brasileiro é, na verdade, um caso estranho de imparável popularidade. Está traduzido em 67 línguas e tem mais de 100 milhões de livros vendidos. É obra.

Conheci José Saramago ainda fresco do Nobel no ano 2000, em Maputo, no decurso das Pontes Lusófonas II. Trazia consigo o peso desse reconhecimento e a postura de um homem maduro, seguro de si, e com um certo ar de patriarca das Letras.

Eu nunca tinha estado em Moçambique, país de excelentes poetas como José Craveirinha, Luís Carlos Patraquim, Noémia de Sousa, Rui Knopfli, Rui Nogar, Sebastião Alba e Eduardo White, entre outros. Cheguei a Maputo arrasado após um périplo por Londres, Lisboa, Joanesburgo até chegar, por fim, ao meu destino final.

Não foi a melhor altura, confesso, para conhecer José Saramago: ele estava azedo, irritado, quase inacessível. Ríspido. Além disso, vê-lo em pessoa chocou-me: era tão parecido com o meu pai que mais me pareceu um tio até ali desconhecido do que um estranho.

Eu tinha perdido o meu pai recentemente e o encontro emocionou-me. Essa impressão inibiu-me um tanto, acrescida do facto de o encontrar num estado de espírito pouco receptivo. Estávamos no autocarro que nos ia levar ao hotel Cardoso, e eu tinha comigo o seu livro Blindness, que viera a ler na minha viagem até Moçambique. Foi pouco simpático quando lhe pedi um autógrafo. Fê-lo noutra ocasião, porém, quando o encontrei mais calmo e bem-disposto. Eu não sou um caçador de autógrafos, esclareço. Mas a oportunidade deparou-se-me e eu pensei que seria, para os meus filhos, uma boa recordação ter o autógrafo do primeiro Nobel de língua portuguesa. Foi em nome deles, aliás, que o pedi.

Não fiquei com má impressão de José Saramago por causa disso. Compreendo que todas as pessoas têm os seus maus momentos e, infelizmente, por vezes somos arrastados neles. Tive pena, sim, de não ter tido ocasião de conversar com ele noutro lugar e noutras circunstâncias.

Acompanhei as suas polémicas através dos media, admirando-lhe a coragem e a frontalidade, não obstante divergir de alguns dos seus pontos de vista, mormente aqueles que tinham a ver com Deus. Mas a verdade é que ele foi um escritor interventivo e que se ocupou com muita paixão dos problemas e das contradições do seu tempo. Uma voz que, infelizmente, já não temos. Além de nos ter sacudido por dentro, enriqueceu-nos de uma ou outra maneira.

O Tarzan Taborda

Liceu Salvador Correia de Sá

Andava ainda descalço pelo quintal quando Tarzan Taborda apareceu em Luanda com uma fúria inverosímil. Temível no ringue de luta livre, os seus adversários pareciam mais vítimas do que oponentes à sua altura. Sofriam tareias de tal modo monumentais que alguns, os mais infelizes, acabavam num voo desgraçado pela plateia fora num itinerário de patos desgarrados cuja aterragem, brutal, tinha toda a aparência de uma aparatosa e inevitável catástrofe. O público, em delírio no Estádio dos Coqueiros, aplaudia de pé.

Eu não podia acreditar, no meio daquela turba ruidosa, que um ser humano fosse capaz de tanta valentia e prodígio físico. A verdade, porém, é que o Tarzan Taborda, com a sua tanga de pele de leopardo e músculos de pedra era um dos imbatíveis heróis da minha infância. Por isso estava eu ali, crente naquele jogo de forças descomunais e cujos combates representavam a realidade de um imaginário que só me era possível desfrutar nos filmes épicos e de cobóis que passavam nas deliciosas matinés da SMAE.

Era pois a idade de andar descalço, não obstante dispor dos «quedes» da fábrica Macambira, na Vila Alice, e das sandálias e dos sapatos que levava à igreja pentecostal todos os domingos. Mas quem era capaz de convencer-me a calçá-los? Eu era um menino negro de pele clara cujos pés recebiam com agrado e privilégio o afago morno daquela terra vermelha.

Era o tempo da liberdade e de uma eterna plenitude estival que nos amolengava atirando-nos para fora de casa. Até na estação fria, que se designava por o cacimbo, nos acompanhava um mormaço deleitoso. Sobre nós caía uma humidade aveludada e morna como se estivéssemos sob os efeitos de uma estuação eterna.

Foi com os angolanos negros que descobri que a inventividade existe em cada um de nós como forma de contornar as dificuldades mais elementares. Aprendi, por exemplo, a fazer papagaios de papel e canas de bambu, a rolar pelas ruas atrás de arcos de barril guiados com um arame, trotinetas com rolamentos de automóveis cujos funcionários da câmara tanto gostavam de confiscar, carrinhos de madeira com os quais fazíamos corridas loucas na descida íngreme em frente do Liceu Salvador Correia.

Tudo passou muito depressa. Cresci, saí de Angola e o Tarzan Taborda (Albano Taborda Curto Esteves) já faleceu. Deixou-nos em Setembro de 2005. Participou, ao longo da sua carreira, em mais de quatro mil combates. O último foi, segundo um artigo de João Saramago no Correio da Manhã de 10 de Setembro de 2005, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Além de lutador foi bailarino no Lido de Paris e fez de duplo em Hollywood. A sua última actividade profissional foi a quiropatia, tendo sido ainda o autor do livro Como Prolongar a Vida com Força, Saúde e Beleza.

Desapareceu o herói que alimentou histórias de valentia de muitos meninos angolanos da minha geração luandense. Uma página, enfim, que se fechou com o silêncio de uma folha cintilante de abacateiro caindo no chão da memória.

Google MapsWikipediaDictionaryAcronyms/AbbreviationsUrban/Slang Dictionary
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O MEU PAI NATAL ANGOLANO

O meu Pai Natal angolano foi sempre um homem pobre. Vinha de noite, muito tarde, entorpecido e cansado. Deixava um carrinho, e às vezes rebuçados, nas sandálias da minha infância.

Não trazia o pesado casaco nem o capuz do Pólo Norte a baloiçar-lhe nos ombros. Vinha de calções e suspensórios vermelhos sobre uma camisa interior branca. Cada passo era como uma onda do mar: cadenciado. Calçava chinelos de borracha e o trenó era uma velha bicicleta, igual a muitas que vi nas picadas do Sul guiadas por homens energéticos e afáveis. Deixava-a encostada ao muro da casa, cheia de pó dos longos e intermináveis caminhos da noite africana.

Eu dormia mal nessas noites antigas. Revolvia-me muito na cama, ansioso, numa vigília que culminava sempre com um rumor de passos. Eram tão leves que pareciam os da «Princesa», a nossa amorosa e fecunda gata.

Levantava-me devagar para não acordar o meu irmão Carlos. A cama rangia, os meus ossos. Invadiam-me o susto e a expectativa de tal modo que todo eu tremia. Espreitava aquela presença surreal suspenso de curiosidade.

Via então o Pai Natal sondar o escuro como um farol alumia a distância. Dos seus olhos corria uma ténue luz de pirilampo. Abaixava-me com cuidado para que não me visse. No entanto, queimava-me por dentro aquela vontade de correr ao seu encontro, abraçá-lo, e pedir-lhe que ficasse um pouco comigo. Precisava tanto que me explicasse por que gostamos de alguém de repente, que milagre acontece dentro de nós, que prisão?

Os rios sinuosos das emoções adejavam no meu peito e asfixiavam-me porque não tinham voz.  Eu levava dentro de mim o peso dos dias e a alegria selvagem do amor.  A ternura era uma espécie de caos, e eu nem sabia que essa palavra existia. Como poderia explicar o que sentia pela Olga, uma flor em movimento?

Ela era uma menina do meu colégio.  Eu morria quando ela estava longe; perto dela todos os momentos se iluminavam. Eu cantava com as minhas mãos porque tudo me parecia música e o mundo um jardim. Desejava tocar-lhe no rosto, abrir os dedos entre os seus cabelos, respirá-los, beijá-los. No recreio, extasiava-me ver como a luz, caída dos mamoeiros, a perseguia por todo o lado como fosse uma borboleta.

Eu gostaria que o Pai Natal me tivesse explicado tudo sobre a solidão e o êxtase. E o que mais tarde aprendi aos trambolhões pela vida fora: que o amor é um sentimento sem barreiras. Tanto é ave como beatitude e incêndio. E que nessa viagem há uma espécie de divindade que nos dignifica e sustém entre o deserto e as cinzas, a arbitrariedade e a melancolia.

Mas eu não podia aproximar-me dele. Se ele me visse, estava certo, nunca mais voltaria. Ficava-me pelo seu vulto, pois, agachado sobre as nossas sandálias. Contentava-me em observar os seus movimentos como numa cena em câmara lenta.

Quando ele se ia embora, silencioso como entrara, eu regressava ao meu reino de sombras.

A cama recebia-me então com o frio de um túnel abandonado. Imóvel e de olhos fechados, escondia a cabeça sob o lençol tentando adormecer.

No último Natal da inocência o Pai Natal não foi tão cuidadoso como nas outras vezes: fez barulho. Todos os seus movimentos demonstravam pressa.

A curiosidade fez-me aventurar um pouco mais. Foi então que lhe vi o rosto.

Já na minha cama, senti uma imensa vontade de chorar. Será que devia acordar o Carlos e dizer-lhe? Agarrei-me à almofada como um náufrago à bóia salvadora. E assim acabei por adormecer.

Pela manhã, à mesa do pequeno-almoço, o carrinho de plástico no colo, vi o meu Pai Natal angolano olhar para mim com os olhos do meu pai.