Retrato antigo

Passa os dedos pela lombada dos livros. O pó do Tempo esvoaça, cobre-lhe as unhas, entra-lhe nos pulmões. O candeeiro da secretário aceso. Numa das paredes um nu de Picasso. Tantas palavras, meu Deus!, pensa, correndo a polpa dos dedos suavemente pelos volumes na estante de mogno. Abre um volume e, com uma lupa, começa a contá-las enquanto a noite se ocupa dos espaços da casa e a fecha sob um denso manto de escuridão.
A madrugada surpreende–o sentado à secretária a murmurar números, olhando-se num espelho sobre o tampo. Não consegue distinguir na imagem que vê a fisionomia de um deus. Vê apenas os riscos das dunas mais antigas – o rosto de um homem no fim, amando-se a si mesmo com a precaridade das areias.

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Momento

Diviso, do outro lado dos ramos, a luz. É uma claridade frágil. Parece-me o rosto de um velho iluminado por um sorriso. Vejo isto como se fosse uma cadência musical, a extinguir-se aos poucos.
A luz vai-se, enfim. Fica a névoa e um torpor frio. Fevereiro é assim, uma estátua no parque, os braços abertos à neve, à chuva e ao vento.
Sou um cão sem trela entre as árvores. A minha vida são estas raízes de névoa, e sobre as quais passo, sem pressa, farejando o mundo.

Gordon

Foi-se embora o Gordon, antes do Natal. Era um homem possante, organizado como um joalheiro antigo. Tinha mãos de lenhador, habituadas ao ferro, aos tachos e aspiradores da sua vida sozinha.
Sofreu muito, antes de se ir embora. Meses. Um século.
O corpo, que era como o do Tarzan Taborda dos meus tempos angolanos, ficou leve e frágil como uma folha de jacarandá. Queria ficar. Pelos pouquíssimos amigos que tinha, o gato, um bichano triste e solitário que o amava como a um pai, a bicicleta, e os longos, preguiçosos dias de Verão.
Ante tudo isto penso: Um homem é uma árvore dos campos à mercê das intempéries. Ninguém é forte o suficiente para nadar incólume até a outra margem da nossa efemeridade.
Viver, pois, do modo como o Gordon gostava. Cheio de coisas simples e de uma alegria infantil, magoada embora pelos ventos cruzados do seu agreste destino.
Deixo aqui uma haste de chuva sobre a sua ausência.

A mãe das gaivotas

Ela sai do carro com um saco plástico. É uma senhora de meia-idade. Olha em redor até avistar as gaivotas. Estão num pequeno bando num lado vazio do parque de estacionamento. Mal a vêem, as aves levantam voo na sua direcção. Voam em círculos. Ela então abre o saco e atira comida para o chão. Depois afasta-se e põe-se a observá-las.
Vai ali todos os sábados.
Uma vez, foi interceptada por uma mulher de café na mão:
– Não devia estar a dar comida às gaivotas, sabe? É contra a lei. Além disso pode fazer-lhes mal.
A mãe das gaivotas olhou-a com curiosidade. Então perguntou:
– Já tomou o pequeno-almoço?
– Não tem nada a ver com isso – respondeu a outra de modo brusco.
– Concordo, tem razão.  Então porque se mete na vida outros?
– Não estou a meter-me na sua vida. O que está a fazer é contra a lei.
– Qual lei? A da fome?
A cidadã preocupada com a lei fez um trejeito de desdém e foi-se embora, acossada por uma nuvem de insignificância.

A mulher da escada

Uma mulher negra, grávida, descia a longa, íngreme escada. De repente falhou-lhe o pé, enfiado num chinelo de borracha. Vi-lhe o horror nos olhos, antes da queda. O grito reverberou até ao impacto no chão de relva.
Que fazer? Corri para o telefone. Desorientado, voltei à janela sem discar o número de emergência. Rodeada de gente, ventre para cima, ela murmurava algo que eu não conseguia ouvir. Foi então que acordei.
Fui à cozinha e bebi um copo de água. Aproximei-me da janela. A noite branca, gelada, invernal. Tem estado assim há semanas, a neve.
Pousei o copo na mesa, incomodado com o sonho. África, sempre. A sua realidade crua em metáforas, imagens, sonhos.
Voltei a deitar-me. Acordado, de olhos fechados, pensando. A escuridão, a noite branca lá fora. Uma escada de contradições rente aos pés.
Subir ou descer?