“Meu Deus, que deserto!” diz a minha mãe. Refere-se aos membros da nossa família que, no decurso da sua vida, foram desaparecendo deste mundo.
A devastação é imensa – pais, tios, avós, irmãos, primos. O companheiro. Todo o seu mundo. Habitam agora o imaginário que cultiva na memória. As recordações afundam-se nos instantes em que pensa neles. A voz treme-lhe e os olhos escurecem.
Tenho diante de mim não apenas a minha mãe, mas a sobrevivente de uma estirpe. Oiço-a enquanto chove e bebemos café numa melancólica tarde de Outono.
Chego a casa e a sua voz é uma luz. Alcança os meus ouvidos desde a mais antiga casa do Tempo. Depois oiço os seus passos arrastados. A sua precária mobilidade denuncia o cansaço dos anos. “Rocky”, o cão, vem à frente.
Nem sempre está bem. As dores escolhem o seu corpo como o garimpeiro as águas do rio. Todas as semanas chegam os comprimidos em embalagens com as doses organizadas. A meticulosidade do Sam, o nosso farmacêutico, é exemplar.
As suas conversas iluminam-me. Conheço, através delas, a Ponta Delgada de outros tempos. Os seus dedos correm antigas fotografias dos álbuns, imagens plangentes tão próximas do seu coração.
Reconheço apenas alguns rostos. Vou sabendo nomes de outros a meio de interjeições de pesar.
Ponta Delgada é uma cidade que me comove. Sempre que lá vou, levito no passado. Lembro-me sobretudo do marcante período que eu e os meus irmãos passámos lá, na infância. Como esquecer as ruas húmidas, o cheiro das casas, a extrema bondade da nossa tia Veneranda?
Com o dinheiro que nos dava comprávamos “línguas de gato”, uma espécie de biscoitos em miniatura. A pequena loja era mesmo ao lado.
Da sua casa restam apenas as olaias da frente, de uma majestade sólida, e em cujo rumor repousa a metálica luz da melancolia. Perderam as paredes de outros tempos, os muros altos, o balcão que dava para a Avenida Lisboa.
Hoje são o marco de uma família. O hotel de luxo que, imponente, ocupa agora aquele espaço, não testemunha essa evidência. Nem os dias mais antigos da minha vida.