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Em setembro caem os últimos frutos.
A praia estende-se para além da noite
e o vento esconde os passos dos amantes.
Afinas a harpa. Os dedos correm a música;
é branco o teu vestido de algodão.
Os teus cabelos caem
sobre os ombros,
molhados pela chuva de uma sonata.
Não me vês nesta praça de mil estações,
perdido no meio dos pombos.
Atravesso a tarde no imenso deserto das ruas
à procura dessa música.
Quem vê cair das tuas mãos as pétalas
dos mais secretos jardins?

In One Day Between Us
(versão portuguesa)

10

Enquanto espero, surge, vinda da marina e acompanhada de um cão preto, uma rapariga. Vem ao mesmo. Espera, um pouco afastada de nós, encostada ao corrimão de madeira. O cachorro corre de um lado para o outro na brincadeira.

Enquanto aguardamos, converso com a senhora que está ao meu lado. Os seus olhos, de um azul doce e claro, estão abandonados a um inextricável mistério. Parecem despir um olhar de água e uma emoção que flutua até ao interlocutor.

Diz-me que está acampada no Ruckle Park, no extremo da ilha. Digo-lhe que também vou para lá. Ela confirma o que tenho lido a respeito do lugar, aparentemente um recanto paradisíaco.

Fico ainda mais entusiasmado. No entanto, não sei quanto tempo ficarei em Granges. Gostava de explorar um pouco as redondezas.

A amiga chega, uma senhora desenvolta de longos e soltos cabelos brancos. Apresentamo-nos. Chama-se Linda; a amiga, Marlene.

A rapariga, vendo-nos a conversar, fica indecisa. Dou-lhe a vez para o chuveiro e ela desaparece por trás do edifício seguida pelo cão.

As senhoras vão-se embora. Entretenho-me a reparar na marina. Está cheia. Salt Spring é uma ilha muito procurada.

Antes que alguém chegue, vou sentar-me num banco perto dos balneários e aguardar a minha vez.

Daí a pouco sai a rapariga, os longos cabelos negros húmidos e cheirosos. Agradece-me outra vez e desaparece seguida pelo companheiro canino.

(continua)

Sentimento de Chuva

A ressonância diluvial das palavras,

quero dizer, a tempestade

da minha boca sobre os teus cabelos.

Calo-me entre o sentido do teu rosto e as ruínas.

Os flamingos fugiram e uma revoada levantou-se por cima

dos teus olhos.

O sul era tão grande dentro de ti!

Depois foi o tempo onde os jardins envelheceram

e os gestos murcharam.

A voz inebriada das guitarras, a festa das rosas,

a resina de velhos ritos, tudo agora

rente a um choro de cigarras.

Dancemos.

O crepúsculo acabou

de incendiar os barcos no cais;

não há ninguém para além de nós

e uma gaivota a perder-se no universo.

O que vi e pensei hoje

As borboletas, adiante de mim, pareciam um guarda-chuva de luz.

….

Descobre a tua sombra no rio da existência . Depois vai pescar com um amigo.

“Meu Deus, que deserto!” diz a minha mãe. Refere-se aos membros da nossa família que, no decurso da sua vida, foram desaparecendo deste mundo.

A devastação é imensa – pais, tios, avós, irmãos, primos. O companheiro. Todo o seu mundo. Habitam agora o imaginário que cultiva na memória. As recordações afundam-se nos instantes em que pensa neles. A voz treme-lhe e os olhos escurecem.

Tenho diante de mim não apenas a minha mãe, mas a sobrevivente de uma estirpe. Oiço-a enquanto chove e bebemos café numa melancólica tarde de Outono.

Chego a casa e a sua voz é uma luz. Alcança os meus ouvidos desde a mais antiga casa do Tempo. Depois oiço os seus passos arrastados. A sua precária mobilidade denuncia o cansaço dos anos. “Rocky”, o cão, vem à frente.

Nem sempre está bem. As dores escolhem o seu corpo como o garimpeiro as águas do rio. Todas as semanas chegam os comprimidos em embalagens com as doses organizadas. A meticulosidade do Sam, o nosso farmacêutico, é exemplar.

As suas conversas iluminam-me. Conheço, através delas, a Ponta Delgada de outros tempos. Os seus dedos correm  antigas fotografias dos álbuns, imagens plangentes tão próximas do seu coração.

Reconheço apenas alguns rostos. Vou sabendo nomes de outros a meio de interjeições de pesar.

Ponta Delgada é uma cidade que me comove. Sempre que lá vou, levito no passado. Lembro-me sobretudo do marcante período que eu e os meus irmãos passámos lá, na infância. Como esquecer as ruas húmidas, o cheiro das casas, a extrema bondade da nossa tia Veneranda?

Com o dinheiro que nos dava comprávamos “línguas de gato”, uma espécie de biscoitos em miniatura. A pequena loja era mesmo ao lado.

Da sua casa restam apenas as olaias da frente, de uma majestade sólida, e em cujo rumor repousa a metálica luz da melancolia. Perderam as paredes de outros tempos, os muros altos, o balcão que dava para a Avenida Lisboa.

Hoje são o marco de uma família. O hotel de luxo que, imponente, ocupa agora aquele espaço, não testemunha essa evidência.  Nem os dias mais antigos da minha vida.

Açores

Regressei há poucos dias dos Açores. Na última tarde, a bruma caía sobre o mar e uma brisa húmida corria as areias da praia do Pópulo. Uns uísques na esplanada do Vamberto, depois o almoço, e aquela melancolia contínua de quem está de partida. À mesa, um amigo do Vamberto de cujo nome não me recordo neste momento.

A chuva caía, como sempre caiu nos Açores: cheia de lágrimas. Eu ali, na ilha da Rosa e da minha mãe, comovido como um menino que está prestes a perder um tesouro.

Os dias na Universidade dos Açores foram belos e cheios. Horas sentado a ouvir. Disse também algumas coisas. As palavras saíram de repente entre a luz do microfone e o silêncio fresco da manhã. A voz dançou sobre o percurso da escrita e a sinuosa estrada daquilo que tem sido a minha vida.

Escrevo este apontamento numa madrugada escura de Pitt Meadows. Chove também aqui e o vento é instigador de violências no meu telhado. Recordo-me dos meus amigos e da minha família. Entre nós, agora, o silêncio: uma pedra a brilhar no escuro. Pego nela e sinto na mão um pedaço de noite, toda a escuridão do Universo.

Sei que todos nós, nas nossas fronteiras físicas e emocionais, estamos sós. Atravessamos a memória a correr contra o destino. Choramos um pouco este pedaço de terra que temos sob os pés –  o nosso espaço de ser, de convivência com a vida, e todos os seus símbolos. Só nos sonhos abrimos as águas por onde passamos durante o dia em busca de sentido e plenitude.

 

P.S. Voltarei ao diário da minha viagem de bicicleta. Desculpem a inconsistência. Mas a verdade é que o meu cálice transborda.

Para Alzira Silva

Em cada fotografia que tiro tento descobrir um novo universo de cores, formas, objectos e fulgurações. Aprendo assim a conhecer um outro mundo. Embora aparente, há que encontrá-lo entre os contornos do mistério. Um ângulo novo é uma reconstrução imagética. Eleva os sentidos a uma catarse visual, à busca de significados novos para o ser.

Estou na Fotografia porque urge-me encontrar outros caminhos para o quotidiano, sem palavras. Apenas o silêncio profundo ante o inesperado – uma cadeira num charco, o cão da cidade atrelado à mão de um velho, que é a nossa mão, frágil e instável, segurando as nossas contradições.

Curioso: as sementes da minha poesia começaram em S. Miguel. Muitos anos depois, foi através de uma máquina fotográfica que vi o mar nos olhos de uma mulher. Era Verão, e sobre a ilha pairava uma nuvem branca. Eu não tinha os pincéis de Matisse, nem o seu génio. Apenas aquela máquina, pequena, trémula e indecisa encostada ao rosto.  Premi o botão e a nuvem entrou na memória. O mar cantava, sempre foi assim nos Açores: como uma imensa língua canina acariciando-me a alma.

No decurso de Praia, Outono Vivo, Açores, estará patente ao público, entre 30 de Outubro e 8 de Novembro 2009, a Exposição de Fotografia de Eduardo Bettencourt Pinto Dançar com a Intimidade. A organização é da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Terceira, Açores.

Para mais informações, por favor consultar a página da organização (Material gráfico), clicando aqui: www.outonovivo.com

Sinopse (do catálogo):

Dançar com a intimidade

Eduardo Bettencourt Pinto

A ilha descobre-se a cada instante. Revela-se nos momentos limpos da sua paixão, nas suas florestas de luz que tanto surpreendem e cativam o visitante.

Passei por aqui à procura do Tempo. Encontrei-o na nobreza dos cavalos, na altivez desconfiada das gaivotas.

Descobri-o na leveza do silêncio, nas flores de sal e vento e no brilho fulgurante das plantas.

Sinto então que toda esta beleza dança dentro do olhar numa harmonia única, que dói no sangue e na alma como se um viajante se perdesse para sempre no meu imaginário à procura do mundo inicial.

Assim me perdi e me encontrei na ilha.

Sexta-feira sem Herta

Pensei hoje em Herta Müller, a recipiente deste ano do Nobel. Li um livro seu há uns anos atrás, O homem é um grande faisão sobre a terra. Lembro-me de ter gostado. Mas se me perguntarem detalhes, desculpem, não há vestígios. São pegadas sem rumo no deserto da memória. Foi há muito tempo. Ontem já é uma eternidade.

Procurei o livrinho nas estantes aqui de casa, monstros incontroláveis que avançam já para o tecto. Gostava de o reler. No entanto, não fui capaz de o encontrar. Má vista, suponho. Ou desatenção. (As mulheres dizem que os homens nunca encontram nada; é verdade. É o meu caso. Já ficou provado imensas vezes).

Pela noite, fui ao centro comercial à procura de uma ferramenta para a minha bicicleta. Aproveitei e fui a uma livraria. De Herta, nada, disse-me a empregada. Era uma rapariga baixinha, cabelos escuros, curtos, olhos impermeáveis e resguardos pela tepidez de umas lentes graves.

Noite frustrante: vim para casa sem ferramenta e sem livros.

O conhecimento, penso, começa na intenção. O resto é circunstancial. Como foi hoje. A necessidade faz o resto, quero dizer: amanhã continuo a busca, consciente embora de que sou homem, distraído e falível.

Na aventura, não importa qual, reside o gozo todo.

Quanto a Herta, vou lê-la desta vez com mais atenção.

9

Desço a longa estrada sem pressa. A minha prioridade é encontrar um lugar público onde tomar banho. Pior do que ser um sítio banal e claustrofóbico, a impraticabilidade do meu parque de campismo é o que me desaponta mais. Não tem chuveiros, por exemplo. Qualquer movimento exige esforço físico. Mas este não é o momento para queixas. Há que descobrir, neste espaço estranho, o mínimo conforto.

Na rua principal dirijo-me a um sujeito que passa. Diz-me que na marina, logo a seguir, há banheiros.

Vejo os barcos, a tranquila água da tarde sob uma espécie de radiação lunar. Do lado esquerdo, um pequeno edifício. Parece a administração da marina. Descubro, através dos vidros, uma senhora por trás de um balcão. Entro? Prefiro averiguar um pouco mais e vou até à doca.

– Sabe se há balneários por aqui? – pergunto a uma senhora que está encostada a um corrimão de madeira.
– É ali mesmo, mas está ocupado.

Diz-me então o número do código para poder entrar. É de uma simpatia diáfana. Enquanto conversamos, vagueiam gaivotas na luz fluída. As nuvens são brancas e calmas. O tempo, um guaraná perto da boca.

(continua)

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