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O meu barbeiro italiano

Empurrei a porta, velhíssima, sob várias, grossas camadas de tinta vermelha. Aquele aspecto antigo, desajeitado. O vidro ao topo, uma coisa ornamental tosca, a levar-nos para o mau gosto.

– Buon giorno!

O Tony levantou a navalha da barba, que cintilou com a luz florescente do tecto. O braço ao alto, peludo, a eterna camisa branca de algodão de mangas curtas. O cliente na cadeira, um homem magro, muito rosado, de olhos fechados, a cara ensaboada. Parecia concentrado no escuro.

– Buon giorno!

Como sempre, o Tony não sorriu. Respondeu-me como se estivesse a falar com uma pedra, sem expressão, distante.

– Há muito tempo que não apareces. O que foi feito de ti?

Dou-lhe a resposta do costume: que ando por aí, distraído com o mundo. O Tempo passa sem rasto. É como o vento.

Ele encolheu os ombros como se eu fosse uma causa perdida.

Sentei-me na primeira cadeira que encontrei disponível. Defronte, uma mesa baixinha cheia de revista de automóveis. Peguei numa.

Notei entretanto uma pequena secretária com um computador antigo. Inquiri.

– Até tem Internet, mas só trabalha quando lhe apetece … –, respondeu-me enquanto apontava a navalha ao pescoço do cliente. Correu a lâmina de seguida, devagar, consciencioso, o pulso firme. Depois limpou-a a um pano, dobrado no braço esquerdo.

– Tem mais independência do que eu! – rematou.

O homem na cadeira, sempre de olhos fechados, sorriu. Vi-o então abrir boca, a fila muito desalinhada dos dentes.

– Concordo com o Tony. E já agora acrescento: eles são temperamentais como as mulheres. Nunca sabemos como estão.

– Não foi bem isso o que eu disse – cortou o Tony. – Até gosto muito de mulheres. Mas que os computadores chateiam, lá isso chateiam. Já agora, James, peço-te que não fales. Posso cortar-te sem querer – avisou o barbeiro baixando a lâmina.

O James piscou os olhos, enrubescido. Balbuciou uma desculpa e voltou à sua imobilidade de sáurio.

O barbeiro não era um homem sofisticado. Estudara pouco, não lia, e acompanhava a evolução tecnológica com olho desconfiado. Tinha, porém, duas paixões: a pesca e os Jaguar.

Por toda a parede da barbearia viam-se fotografias dele a pescar, acompanhado de amigos. Nalgumas notava-se um jovem delgado, de estatura média, e com uma madeixa teimosa de cabelos negros e agressivos caídos sobre a testa. Noutras um homem de meia-idade, o mesmo sorriso de triunfo, as botas de cano alto à Hemingway onde afundava as calças. Em todas elas, porém, viam-se os troféus em primeiro plano. O seu orgulho era evidente. Tinha-os junto aos pés, testemunhos do seu triunfo para a posteridade, argumentos inequívocos da sua perícia e obstinação. Os peixes eram de facto enormíssimos, suculentos, e de se morrer de inveja. Davam para a extravagância exibicionista de um banquete de gente rica.

Mas o sol que atravessava a janela caía sobre um peixe gigantesco, embalsamado, que o Tony exibia com orgulho e muito destaque ao centro da parede. Quem entrava, descobria-o logo, imponente, esplêndido. Ficava-se com a breve impressão de que se entrara pela porta errada, de um museu, em vez de aquela humilde barbearia de bairro.

O italiano era um homem metódico, um relógio suíço de hábitos inquebráveis. Não me lembro de alguma vez ter visto o seu Jaguar parado noutro local senão aquele, do outro lado do passeio. Parecia um imperador em descanso.

Era evidente o seu apreço por ele, uma máquina possante de 12 cilindros. Sob a forte claridade do Verão, o prateado da pintura dava-lhe um ar de cavalo indomável.

Por trás da cadeira, uma tesoura na mão, um pente ou uma navalha, o seu olhar de vez em quando voava para a rua. Parecia um pássaro triste e atormentado com o seu aprisionamento. Notava-se que tinha um imenso afecto pelo seu belo companheiro de metal.

***

Há poucos dias voltei à barbearia e já não  encontrei o Tony.  Passou o negócio e reformou-se. Saiu do país.

A barbearia não parecia o mesmo lugar – sem a fluidez dos seus gestos, a sua indiferença assoberbada, as fotografias, o peixe embalsamado, as revistas de carros e o venerável e preguiçoso computador.

Fui-me embora com o cabelo cortado para não desapontar o novo proprietário, mas sem a convicção de que voltaria.

Quando saía, um homem atravessava a rua. Dirigiu-se ao lugar onde o Tony estacionava o carro e meteu-se num Toyota vermelho.

Ao passar por mim notei-lhe o ar intrigado. Só então me dei conta de que tinha estado a olhar para ele imaginando os últimos passos do meu barbeiro italiano ao encontro do crepúsculo da sua vida.

A poesia ganha outra dimensão na voz de certas pessoas. É uma espécie de reverberação do som, algo que cintila e não se vê. Uma brisa da alma. Quedamo-nos inquietos perante o inominável. As palavras ardem num branco sublime, levam-nos até às lágrimas ou ao júbilo mais transcendente.

É um dom raro. Não é a voz que conta mas a sensibilidade por detrás dela. Aurelino Costa é um desses poetas. Ele não diz poesia: canta-a com paixão.

Está com ele o piano de António Victorino de Almeida. Neste novo CD, a conhecida dupla traz-nos a intensa, dorida poesia de Miguel Torga.

Poemas belos, ditos e acompanhados com elegância. A voz, sempre a voz de Aurelino Costa elevando-se entre as notas do piano – a terra antiga, as pedras e as serras de Miguel Torga.

A poesia não dá aos pobres o volume de uma moeda, ou um lenço onde se possa esconder todo o outono da melancolia. Mas é no seu ardor que os olhos de uma mulher são a coisa mais linda do mundo, que um pássaro sai dos nossos dedos e parte de repente para a madrugada. A poesia dá sentido ao inexplicável. Vem ter connosco como alguém que regressou do passado para nos abraçar.

Ouvindo Aurelino da Costa, vejo como certos dias foram de trigo, como a esperança é a sombra de um moinho branco caída numa trança. Quero ainda dizer, o Verão, o azul do Verão, a dormir nas nossas mãos nas noites mais longas e tristes.

Uma voz, a poesia de Miguel Torga. Um piano. Que deslumbramento nesta viagem pela música das emoções!

Um poema no bolso


Carlos Faria

Falava tão de dentro que as suas mãos cantavam. Soltava-se em gestos largos como um marinheiro cheio de júbilo por sentir os pés na terra amada. Quando vinha de S. Jorge, a ilha amada, trazia os olhos cheios de poemas, o verde fosforescente das escarpas e o secreto rumor do sol que colhia em cada rua, metaforicamente descalço sobre o silêncio.

Encontrámo-nos muitas vezes na saudosa piscina de S. Pedro quando ele aparecia em S. Miguel. Muitas vezes puxou do seu caderno de apontamentos para me ler um poema com a sua voz de barítono em descanso. Quase sempre eram poemas que ele apaixonadamente dedicava à sua ilha açoriana de eleição: S. Jorge. Enquanto lia as ondas do mar rebentavam contra as rochas negras e eu bebia as suas palavras como se fossem água.

Eu era jovem e não percebia ainda muito bem que um poeta não tem país e não tem terra. O seu coração é uma viagem constante pelo Tempo e pelas secretas geografias da vida.

Oiço os adágios de Albinoni e recordo a noite em que eu, o Carlos Faria, o Onésimo Almeida, o Vamberto Freitas e a Maria Aurora Homem estávamos numa esplanada nas Velas. O Carlos, exuberante como sempre, contava histórias naquele ritmo que era tão seu, cheio de vida, energia e esplendor. Foi um serão, como sempre, memorável.

Quando um amigo parte, tudo passa na memória como um filme. Tão pobres, frágeis e efémeros, que podemos fazer senão gastar em palavras o que nos vai no coração? No fundo, queremos apenas dizer que um amigo fica para sempre dentro de nós como uma árvore. Que as suas folhas foram todos os momentos de convívio são, e que a sua vida nos marcou e foi relevante neste mundo.

O Carlos Faria era um português antigo, nobre, cuja amizade não esmorecia como uma chama quase no fim. Tinha o abraço de sempre nos seus braços de ex-campeão de halterofilismo de Portugal, no bolso da camisa os últimos poemas, na voz um calor sem ressentimentos, sempre jovial, felino.

Sim, Carlos, continuo a ouvir-te. Continuaremos sempre, os teus amigos.

Não descanses: lê os teus poemas aos anjos que passam. Canta a ilha nessa dimensão em que o Tempo é apenas uma gota de silêncio entre os dedos.

Eduardo Bettencourt Pinto
——–

Flash (A União, 18 Nov. 1972)*
Karlos Faria

De avião, da Terceira para o Faial… Aqueles minutos breves por cima de S. Jorge… A ilha a correr, ela própria a correr, toda verde e esbelta, virgem e nua, de verde e azul!

Sobrevoar S. Jorge dá-me uma alegria nova e diferente. É um longo corpo de pedra, uma natureza insular que sinto à sua altura humana e geográfica. S. Jorge: a ilha, a mais ilha, a mais demorada, tranquila, isolada de silêncio, longa garupa dum cavalo de basalto! A ilha mais ilha, a povoar o mar que a viaja!

Vou de avião por cima de S. Jorge, cortando a ilha em oblíquo, assim: para que a ilha demore o mais tempo possível na sua cintura de serra… Vou de avião: mas não me sinto mais alto: estou à altura das suas fajãs, ombro a ombro com o seu povo!

S. Jorge: um grito de pedra silencioso e verde. E nuvens como punhos cerrados, depois como mãos abertas! E a ilha, sempre a ilha; coração de pedra, mas a pulsar, a bater, a mergulhar no mar… ah! como em S. Jorge o mar é menos longo, peito aberto do Topo aos Rosais…

De avião: S. Jorge sabe-me a caminhada. Pareço que caminho, toco com os lábios o Pico da Esperança, que caminho… Vou de avião… e desço descalço a Ribeira dos Vimes até à Caldeira… Vou de avião?

O meu companheiro de viagem diz: “esta ilha é S. Jorge. Estamos a passar por cima de S. Jorge”. Isto é fisicamente verdade, a verdade dum passageiro logicamente inviolável. Eu não. Eu sinto que vou por S. Jorge. Por S. Jorge estrada, freguesia, povo, canada, serra, cor, drama, silêncio, natureza, alegria, respiração. Para o meu companheiro a viagem é passar, para mim é estar.

Ele vê-se do avião e no avião. Eu vejo-me de terra e é lá que existo, e penso que os aviões são realidades falsas ou breves enganos do alto…

Não há engano possível: a única realidade é S. Jorge!

* Texto de Carlos Faria: cortesia de Onésimo Almeida e Artur Goulart

Viagem de bicicleta

A série que tenho vindo a publicar aqui em capítulos aparecerá, logo que possível, em formato PDF e numa só ficha. Desculpem a inconveniência.

Onésimo T. Almeida

Declarado o ano de Charles Darwin, 2009 trouxe-nos novas oportunidades para nos reaproximarmos dos seus conceitos e ponderarmos um pouco mais sobre a Teoria da Evolução, ou seja, a hereditariedade e a mutação das espécies.

Nesse contexto (e não só), apareceu em Portugal um novo livro de Onésimo Teotónio Almeida, De Marx a Darwin – A Desconfiança das Ideologias, com a chancela da Gradiva.

Há muitos anos Professor de Filosofia na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, OTA tem vários livros publicados em diversas áreas literárias, desde o ensaio, ficção (teatro e contos) à crónica, sendo, neste género, colaborador, por exemplo, da revista LER e JL (Jornal de Letras) bem como de outras publicações. Além disso é presença frequente em colóquios de vária índole, nos Estados Unidos, Europa e Brasil. Um nome, enfim, que não requer apresentação.

Desde a mundividência marxista ao determinismo biológico, OTA debruça-se, numa escrita elegante e sem desnecessários hermetismos linguísticos, sobre a nossa condição humana, reflectindo sobre a sociobiologia, a psicologia evolutiva e o paradigma darwinista. O capítulo, por exemplo, intitulado «Do (re)conhecimento da ignorância como saudável atitude fundacional» revela uma sagacidade e humildade raras. Cito esta passagem lapidar: «Confrontado há tempos com a proposta de intervenção num colóquio sobre a questão da «unicidade do conhecimento», chamei a atenção para o facto de uma das grandes marcas do conhecimento nos nossos dias ser a consciência da nossa ignorância.»

Para aqueles que se interessam por estas questões, recomendo vivamente este livro. Para mais informações p.f. clique aqui.

Namibe

Um documentário breve mas interessante sobre o Namibe, Angola. Estive lá em Março 1976, antes de sair do país. Nessa altura, os angolanos já se matavam uns aos outros enquanto as potências mundiais discutiam que privilégios obter entre o caos e a cinza.
O cenário mudou, todos sabem mais ou menos a história… Esta, no entanto, é outra. É a dos lugares e a do povo.
Podem ver aqui:

Talvez te encontre um dia rente a muros poluídos ou na breve sombra do verão numa outra cidade. Teremos, quem sabe, as últimas palavras diante de um copo de chocolate. Os anos que se foram parecerão as ruínas amarelas de um calendário inescrutável. Sei que te amarei como a um livro de poemas, folha a folha, como à alegria de um dia tão branco como o desejo.

Que imagem colherei de ti  além do rumor do pássaro que és num ramo de magnólia, momento a momento, nos desertos mais íntimos e nocturnos?

Valerá, eu sei, a tua voz nas minhas mãos, os teus cabelos, o breve momento em que se aprende o amor até tudo partir com o vento.

In One day between us
(versão portuguesa)

Em setembro caem os últimos frutos.
A praia estende-se para além da noite
e o vento esconde os passos dos amantes.
Afinas a harpa. Os dedos correm a música;
é branco o teu vestido de algodão.
Os teus cabelos caem
sobre os ombros,
molhados pela chuva de uma sonata.
Não me vês nesta praça de mil estações,
perdido no meio dos pombos.
Atravesso a tarde no imenso deserto das ruas
à procura dessa música.
Quem vê cair das tuas mãos as pétalas
dos mais secretos jardins?

In One Day Between Us
(versão portuguesa)

10

Enquanto espero, surge, vinda da marina e acompanhada de um cão preto, uma rapariga. Vem ao mesmo. Espera, um pouco afastada de nós, encostada ao corrimão de madeira. O cachorro corre de um lado para o outro na brincadeira.

Enquanto aguardamos, converso com a senhora que está ao meu lado. Os seus olhos, de um azul doce e claro, estão abandonados a um inextricável mistério. Parecem despir um olhar de água e uma emoção que flutua até ao interlocutor.

Diz-me que está acampada no Ruckle Park, no extremo da ilha. Digo-lhe que também vou para lá. Ela confirma o que tenho lido a respeito do lugar, aparentemente um recanto paradisíaco.

Fico ainda mais entusiasmado. No entanto, não sei quanto tempo ficarei em Granges. Gostava de explorar um pouco as redondezas.

A amiga chega, uma senhora desenvolta de longos e soltos cabelos brancos. Apresentamo-nos. Chama-se Linda; a amiga, Marlene.

A rapariga, vendo-nos a conversar, fica indecisa. Dou-lhe a vez para o chuveiro e ela desaparece por trás do edifício seguida pelo cão.

As senhoras vão-se embora. Entretenho-me a reparar na marina. Está cheia. Salt Spring é uma ilha muito procurada.

Antes que alguém chegue, vou sentar-me num banco perto dos balneários e aguardar a minha vez.

Daí a pouco sai a rapariga, os longos cabelos negros húmidos e cheirosos. Agradece-me outra vez e desaparece seguida pelo companheiro canino.

(continua)

Sentimento de Chuva

A ressonância diluvial das palavras,

quero dizer, a tempestade

da minha boca sobre os teus cabelos.

Calo-me entre o sentido do teu rosto e as ruínas.

Os flamingos fugiram e uma revoada levantou-se por cima

dos teus olhos.

O sul era tão grande dentro de ti!

Depois foi o tempo onde os jardins envelheceram

e os gestos murcharam.

A voz inebriada das guitarras, a festa das rosas,

a resina de velhos ritos, tudo agora

rente a um choro de cigarras.

Dancemos.

O crepúsculo acabou

de incendiar os barcos no cais;

não há ninguém para além de nós

e uma gaivota a perder-se no universo.

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