Novembro 6, 2009 por eduardobpinto
Regressei há poucos dias dos Açores. Na última tarde, a bruma caía sobre o mar e uma brisa húmida corria as areias da praia do Pópulo. Uns uísques na esplanada do Vamberto, depois o almoço, e aquela melancolia contínua de quem está de partida. À mesa, um amigo do Vamberto de cujo nome não me recordo neste momento.
A chuva caía, como sempre caiu nos Açores: cheia de lágrimas. Eu ali, na ilha da Rosa e da minha mãe, comovido como um menino que está prestes a perder um tesouro.
Os dias na Universidade dos Açores foram belos e cheios. Horas sentado a ouvir. Disse também algumas coisas. As palavras saíram de repente entre a luz do microfone e o silêncio fresco da manhã. A voz dançou sobre o percurso da escrita e a sinuosa estrada daquilo que tem sido a minha vida.
Escrevo este apontamento numa madrugada escura de Pitt Meadows. Chove também aqui e o vento é instigador de violências no meu telhado. Recordo-me dos meus amigos e da minha família. Entre nós, agora, o silêncio: uma pedra a brilhar no escuro. Pego nela e sinto na mão um pedaço de noite, toda a escuridão do Universo.
Sei que todos nós, nas nossas fronteiras físicas e emocionais, estamos sós. Atravessamos a memória a correr contra o destino. Choramos um pouco este pedaço de terra que temos sob os pés – o nosso espaço de ser, de convivência com a vida, e todos os seus símbolos. Só nos sonhos abrimos as águas por onde passamos durante o dia em busca de sentido e plenitude.
P.S. Voltarei ao diário da minha viagem de bicicleta. Desculpem a inconsistência. Mas a verdade é que o meu cálice transborda.
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Outubro 18, 2009 por eduardobpinto
Para Alzira Silva
Em cada fotografia que tiro tento descobrir um novo universo de cores, formas, objectos e fulgurações. Aprendo assim a conhecer um outro mundo. Embora aparente, há que encontrá-lo entre os contornos do mistério. Um ângulo novo é uma reconstrução imagética. Eleva os sentidos a uma catarse visual, à busca de significados novos para o ser.
Estou na Fotografia porque urge-me encontrar outros caminhos para o quotidiano, sem palavras. Apenas o silêncio profundo ante o inesperado – uma cadeira num charco, o cão da cidade atrelado à mão de um velho, que é a nossa mão, frágil e instável, segurando as nossas contradições.
Curioso: as sementes da minha poesia começaram em S. Miguel. Muitos anos depois, foi através de uma máquina fotográfica que vi o mar nos olhos de uma mulher. Era Verão, e sobre a ilha pairava uma nuvem branca. Eu não tinha os pincéis de Matisse, nem o seu génio. Apenas aquela máquina, pequena, trémula e indecisa encostada ao rosto. Premi o botão e a nuvem entrou na memória. O mar cantava, sempre foi assim nos Açores: como uma imensa língua canina acariciando-me a alma.
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Outubro 12, 2009 por eduardobpinto
No decurso de Praia, Outono Vivo, Açores, estará patente ao público, entre 30 de Outubro e 8 de Novembro 2009, a Exposição de Fotografia de Eduardo Bettencourt Pinto Dançar com a Intimidade. A organização é da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Terceira, Açores.
Para mais informações, por favor consultar a página da organização (Material gráfico), clicando aqui: www.outonovivo.com
Sinopse (do catálogo):
Dançar com a intimidade
Eduardo Bettencourt Pinto
A ilha descobre-se a cada instante. Revela-se nos momentos limpos da sua paixão, nas suas florestas de luz que tanto surpreendem e cativam o visitante.
Passei por aqui à procura do Tempo. Encontrei-o na nobreza dos cavalos, na altivez desconfiada das gaivotas.
Descobri-o na leveza do silêncio, nas flores de sal e vento e no brilho fulgurante das plantas.
Sinto então que toda esta beleza dança dentro do olhar numa harmonia única, que dói no sangue e na alma como se um viajante se perdesse para sempre no meu imaginário à procura do mundo inicial.
Assim me perdi e me encontrei na ilha.
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Outubro 10, 2009 por eduardobpinto
Pensei hoje em Herta Müller, a recipiente deste ano do Nobel. Li um livro seu há uns anos atrás, O homem é um grande faisão sobre a terra. Lembro-me de ter gostado. Mas se me perguntarem detalhes, desculpem, não há vestígios. São pegadas sem rumo no deserto da memória. Foi há muito tempo. Ontem já é uma eternidade.
Procurei o livrinho nas estantes aqui de casa, monstros incontroláveis que avançam já para o tecto. Gostava de o reler. No entanto, não fui capaz de o encontrar. Má vista, suponho. Ou desatenção. (As mulheres dizem que os homens nunca encontram nada; é verdade. É o meu caso. Já ficou provado imensas vezes).
Pela noite, fui ao centro comercial à procura de uma ferramenta para a minha bicicleta. Aproveitei e fui a uma livraria. De Herta, nada, disse-me a empregada. Era uma rapariga baixinha, cabelos escuros, curtos, olhos impermeáveis e resguardos pela tepidez de umas lentes graves.
Noite frustrante: vim para casa sem ferramenta e sem livros.
O conhecimento, penso, começa na intenção. O resto é circunstancial. Como foi hoje. A necessidade faz o resto, quero dizer: amanhã continuo a busca, consciente embora de que sou homem, distraído e falível.
Na aventura, não importa qual, reside o gozo todo.
Quanto a Herta, vou lê-la desta vez com mais atenção.
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Outubro 9, 2009 por eduardobpinto
9
Desço a longa estrada sem pressa. A minha prioridade é encontrar um lugar público onde tomar banho. Pior do que ser um sítio banal e claustrofóbico, a impraticabilidade do meu parque de campismo é o que me desaponta mais. Não tem chuveiros, por exemplo. Qualquer movimento exige esforço físico. Mas este não é o momento para queixas. Há que descobrir, neste espaço estranho, o mínimo conforto.
Na rua principal dirijo-me a um sujeito que passa. Diz-me que na marina, logo a seguir, há banheiros.
Vejo os barcos, a tranquila água da tarde sob uma espécie de radiação lunar. Do lado esquerdo, um pequeno edifício. Parece a administração da marina. Descubro, através dos vidros, uma senhora por trás de um balcão. Entro? Prefiro averiguar um pouco mais e vou até à doca.
– Sabe se há balneários por aqui? – pergunto a uma senhora que está encostada a um corrimão de madeira.
– É ali mesmo, mas está ocupado.
Diz-me então o número do código para poder entrar. É de uma simpatia diáfana. Enquanto conversamos, vagueiam gaivotas na luz fluída. As nuvens são brancas e calmas. O tempo, um guaraná perto da boca.
(continua)
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Outubro 8, 2009 por eduardobpinto
8
Num instante encontro o desafio mais incontornável desta viagem: uma subida tão íngreme e penosa que até os carros gemem. Progredimos muito lentamente. Com o esforço vejo a lua, o sol e as estrelas estampados no asfalto. O mundo num filme lento a cada impulso dos pedais. Até que de repente a corrente sai. Sensação frustrante. Encosto à beira da estrada. Preciso de um pedaço de ramo. Não quero sujar as mãos de óleo. Encontro por fim um pau e conserto a corrente.
Agora como subir, sem um impulso? Decido empurrar a bicicleta estrada acima. Não há outro modo.
Longos minutos depois, numa bifurcação, a Linda e a Winnie. Esperam por mim. Digo-lhes que o meu parque de campismo é ali, vi o sinal. Despedimo-nos. Fico de telefonar-lhes no dia seguinte, pela manhã.
Desço uma estrada de terra batida, evitando as pedras o melhor que posso. Paro à entrada. Noto uma secretária sob um toldo amarelo, junto a uma espécie de casa pré-fabricada. Ninguém. Reparo então num cartaz. Diz, em letras grandes, que o “manager” se encontra ausente. Os campistas podem escolher à vontade os lugares disponíveis. Curioso, penso.
Levo a bicicleta pela mão e deixo-a fora do caminho. É um lugar feio, numa cova, sem paisagem e com a estrada principal por cima. E agora? Se a topografia da ilha fosse outra, procurava um lugar mais aprazível. Cansado, não me atrai a ideia de andar por aí, morros acima e abaixo, com uma bicicleta pesadíssima, à procura de algo melhor.
Dou ainda uma vista de olhos pelo parque. Decido-me então por um lugar que está perto do quarto de banho e da água.
Monto a tenda, tiro os sacos da bicicleta e meto-os lá dentro. Depois agarro no saco da máquina fotográfica, meto o sabonete num dos bolsos, e ponho-me a caminho de Ganges. A pé.

Acampamento em Ganges.
(continua)
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Outubro 7, 2009 por eduardobpinto
7
– Encontramo-nos em Ganges. No primeiro bar em que entrares, vês-me lá – diz-me o Paul, lançando a mochila às costas.
Saímos todos em fila. Subida acentuada mas sofrível. Vou mudando as velocidades até ficar na menos esforçada. O Paul à frente, seguro no pedalar; depois a Linda e eu; a Winnie na cauda. Alguns quilómetros depois o Paul desaparece da nossa vista. Sem peso, voou como um pássaro.
Não lhe disse nada, mas a ideia do bar não me atrai. Isso implica gente, ruído, álcool. Eu venho da cidade e nunca, mas nunca, vou a bares. Prefiro uma bebida em casa e no esplendor da tarde. Ou um sumo de manga, ouvindo os pássaros no meu balcão enquanto leio. Os bares são lugares premeditados; a solidão disfarçada toma uma forma sepulcral nos gestos esvaídos, e as conversas elevam-se a berros. O interlocutor passa a ser uma espécie de caixa de ressonância onde o som da nossa voz se fragmenta em mil cacos de futilidades.
As senhoras vão ficar num centro de yoga. Eu vou para um parque de campismo. Trago a direcção no bolso mas não sei como lá chegar. Sei que fica a pouca distância de Ganges. Segundo o senhor com quem falei, o parque é bonito, sob árvores. No Outono deixam cair folhas com a transparência de um oiro fosforescente. Essa imagem agrada-me. O Outono é uma estação lindíssima, segura como um amor tranquilo. Então é que me lembro que ainda estamos no Verão, embora já no fim. Procurarei outras transfigurações.
Na rua principal avistamos um centro de turismo. A Linda e eu entramos.
A senhora oferece-me um mapa da ilha e aponta com uma esferográfica a direcção que procuro. São quase duas horas da tarde. O sol parece estar a pino. Volto a pôr os óculos de sol e saio.
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Outubro 6, 2009 por eduardobpinto
6
Os meus companheiros de viagem são pessoas cultas. Viajam de bicicleta por opção, por gosto e independência. Não podem salvar o planeta desta poluição horrível que nos cerca. Fazem-no porque é uma maneira idílica de absorver com significado os lugares por onde passam entre a brisa da aventura. Têm carros como quase todas a pessoas mas deixam-nos em casa. Compreendem que em muitos casos o automóvel passou a ser uma jactância social, que dá aos seus utentes uma falsa imagem de soberania. Compram-se carros de marca para impressionar os vizinhos, os amigos, os «impressionáveis», aqueles que se deixam abater sob o mínimo sopro materialista. Os que viajam de bicicleta deixam-se tocar pelas páginas de um bom livro, pelo som da Natureza, pela música que atravessa séculos e soa sempre a música e não a berro esquizofrénico.
E falamos de tudo isto enquanto nos deixamos rodear de vento e sol, sentados numa caixa de metal no convés.
De repente uma voz feminina no altifalante a comunicar que chegamos a Long Harbour. Vejo o porto adiante, as gaivotas da tarde em círculos vagarosos em redor de pequenos barcos. Salt Spring!
Passaram-se três horas, um relâmpago. Ouvi histórias, partes de mundo. Se tivesse vindo de carro possivelmente estaria lá dentro, como todos os outros passageiros, sentado na minha confortável indiferença social.
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Outubro 5, 2009 por eduardobpinto
Domingo é a noite mais triste. As árvores afogam-se no escuro, os vultos da rua. O silêncio parece um deserto. Leio poesia e sento-me nas margens dos rios à tua espera. Conta-me a tua história. Na tua voz repete-se a Primavera, os segredos da terra, o fulgor da lua. Quero ouvir-te porque trazes o mar contigo.
Domingo é um calendário de submissões. Escuto o ressoar de cada página, as asas do pássaro aflito, a vertigem do itinerário que é a vida, palmo a palmo, entre as horas fundas da noite triste – o domingo a escurecer de melancolia.
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Outubro 3, 2009 por eduardobpinto
5
Arrumamos as bicicletas no ventre do navio, encostadas a uma das paredes, do lado quem entra. Mal acabamos e logo começam a entrar os automóveis. Fico um momento a ajudar uma das senhoras que tem dificuldade em arrumar a bicicleta. Depois esgueiro-me por uma entrada que dá acesso às escadas. Subo até ao segundo andar.
Avisto o Paul, que se aproxima.
– E se fossemos lá para fora? – pergunta com o café na mão esquerda e a mochila na outra.
– Óptima ideia!
Está uma brisa fresca. O azul é o de um tom de Agosto, extemporâneo. A claridade parece mediterrânica. Sentamo-nos numa caixa de metal a conversar.
Debruçado sobre a amurada um cavalheiro já a rondar a idade anciã. É magro, alto, cabelo de nuvens a embranquecer, barba de um dia, bigode farto, boné castanho-claro. Parece embevecido com a paisagem. Vira-se de repente e então vejo no seu rosto a tranquilidade de quem está num verdadeiro estado de extasia. Leva a mão ao bolso do casaco de ganga e tira uma máquina fotográfica descartável. Quer levar consigo os contornos e as cores daqueles momentos. Fecha o olho esquerdo, encosta a testa à caixinha de plástico, e põe-se a registar imagens. Um pobre homem, silencioso como a água do Pacífico.
As senhoras aparecem de repente. Sentam-se ao nosso lado. Apresentam-se: Linda e Winnie. São americanas. Vieram de carro e deixaram-no no parque de estacionamento.
A Winnie é de ascendência açoriana. Falo-lhe na minha “costela” micaelense e ela pede-me que lhe conte coisas dos Açores. Não conhece. Aliás, nunca foi a Portugal, ao contrário da Linda que já andou por lá de bicicleta.
Conversamos os quatro. O sol é abrasador, a paisagem transcendente. As bicicletas unem-nos, pequenas histórias, o entusiasmo pela vida simples rente às sementes do silêncio.
(continua)

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