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Mister Bento não é um homem velho: ele é o tempo. Está sentado num degrau, à entrada da porta. Ao seu lado, deitado, «Olive», o gato. É um belo felino, de um cinzento-claro aveludado e brilhantes olhos de esmeralda.

A manhã de Junho, clara e doirada, passa devagar. Mister Bento tem os dedos entrelaçados e os braços, que já ergueram pedras e areia, repousam nas pernas. É um guerreiro cansado.

O gato corre ao meu encontro e enrosca-se nas minhas pernas.

– É um tolo – diz Mister Bento.

Não é recriminação mas ternura sem jeito. Os seus olhos, míopes, transmitem um reflexo estranho. «Estou quase cego», disse-me um dia. «Vejo as coisas cheias de nuvens».

– Então, temos figos este ano? –  pergunto.

Adoro figos. Lembro-me sempre das figueiras dos meus tios Veneranda e Guilherme, em Ponta Delgada. Há sempre um Verão intenso nessa memória, melros, lagartos preguiçosos nos escuros muros de magma. Éramos – eu e os meus irmãos – meninos africanos com o mar dos Açores ao fundo da rua.

– A figueira morreu –  diz Mister Bento piscando os olhos. – O Inverno matou-a.

Há no seu tom uma resignação triste, sábia.

Fico pesaroso. Era uma árvore lindíssima. Quando olhava para cima, por entre as folhas e os ramos, brilhava o azul do céu. Lembro-me de, certa vez, ouvir um pica-pau matraquear num candeeiro da rua enquanto colhia um fruto.

Toco no tronco seco – parece-me as costas magras de um velho. O sol é duro, navega entre os meus dedos.

Mister Bento está calado. «Olive», o gato, persegue uma borboleta branca, minúscula, entre a relva.

Há dias em que as palavras me cansam. Sinto-as nos bolsos como pedras, nas unhas como aves predadoras. Farto-me delas como dos presunçosos e aborrecidos.

Não as amo, não as venero. Como as mãos, estão aqui sobre os joelhos. Fazem parte deste corpo. Não penso nelas: são a voz dos meus dedos. Mas cansam-me, invisíveis na sua nomenclatura simbólica.

Prefiro o mar, esse que não tenho, tropical, morno, e água de coco na boca. Prefiro a companhia de uma mulher. Prefiro uma mota, uma máquina fotográfica e um papagaio de papel a subir numa rua de Luanda. Prefiro um uísque num pátio mexicano, um merengue, um samba ao cair da tarde. Prefiro dançar descalço na areia e sob palmeiras. Prefiro viver numa jangada nas correntes doces de um rio, esquecer-me, esquecer, aprender tudo de novo, e com arte: ser uma criança a correr no coração de um velho.

Não sei até que ponto Luanda é uma cidade de prodígios. Saí de lá há muitos anos e a realidade social e física da capital angolana são diferentes. Certamente, porém, sê-lo-á pelo engenho das suas gentes. Os desafios da vida presente, herdados de uma prolongada e tortuosa guerra civil, corroboram essa perspectiva.

Apesar das contrariedades, o angolano é festivo, ri-se com facilidade e encontra no humor o elixir que o ajuda a colmatar a falta de dinheiro, a fome, a doença, e todos os malefícios da desigualdade social. Apesar dos avanços (a vários níveis) que Angola tem experimentado com o fim da guerra, o país tropeça ainda nos vícios engendrados pelo caos do período pós-colonial,  permitindo que se instalassem no seu seio com raízes profundas.

Quem vem de fora observa com mais facilidade o estado das coisas. É o caso de Luísa Coelho, que nasceu em Angola e regressou ao país após 38 anos de ausência. Doutorada em Literatura Portuguesa – Modernismo – pela Universidade de Utrecht na Holanda, é neste momento Professora na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Já publicou vários livros de ficção. Kunuar (Edições Contra Margem), o seu livro mais recente, engloba composições híbridas, desde a prosa (curta) poética ao poema.

Logo a começar pela capa ficamos perante a força imagética da fotografia (de Solange Escosteguy Cardoso, artista plástica brasileira – pintora, desenhista e escultora): uma mãe angolana, sentada naquilo que parece ser um banco, o braço apoiado na perna direita, a mão aberta, e na qual repousa o queixo. A sua expressão é de alheamento, quiçá de enfado. Entre as pernas tem o filho, descalço, amamentando-se com avidez no seu peito. Ao lado, semi-encoberto, um saco – talvez de arroz, onde se adivinham caracteres chineses. Uma vendedora da praça, dessas que inundam os grandes espaços da capital, expostas à inclemência solar, ao calor tórrido e húmido, ao pó.

Luanda, sobrepovoada, é um universo único. Logo pela manhã, um maremoto de gente atira-se para a rua. O olhar observador voa então sobre essas vidas que partem das esteiras, apressadas, ao ritmo de um quotidiano bamboleante, numa gingação natural, os cordões de missangas dançando com a luz. Falo das quitandeiras, as quindas à cabeça, os filhos pela mão. A poesia de Luísa Coelho, a que brota deste livro, atravessa toda essa simbologia da infância, agora, porém, carregada de outras ressonâncias: “Há dias assim/em que pela beira da estrada empoeirada/caminham em fila/enormes cabeças enfaixadas de lenha/cabeças plastificadas de água/azul/amarela/encarnada,/corpos de mulheres embrulhados em cores/sem rostos/sem neurastenias sem depressões/sem histerias nem prostrações./Esses dias assim, são todos os dias.”

Todo esse mundo que lhe é familiar faz evocar-lhe recordações distantes. Debate-se no entanto com o presente, cuja transformação faz dele um espaço por vezes estranho. Exemplo: o que transparece no poema “Mapa Mundi”, uma referência às cidades cujos nomes mudaram: “E a criança de então,/sou eu/estrangeira naquilo que também é meu.”

A vida muda, é certo, e nessa mudança geram-se fenómenos interiores que absorvem igualmente essa mutação exterior, transformando a pessoa. Kunuar toca-nos pela observância desse drama, pelo seu imenso olhar sobre a existência de um povo a lutar por uma vida digna. É um livro dolorosamente belo, seguro e múltiplo no dizer. E de uma humanidade sem artifícios semânticos nem adjectivos de adorno sentimental. São palavras que ficam connosco, no espírito e no coração. Uma leitura vivificante e com toda a tristeza do fogo que alimenta a nostalgia.

O amor

Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação.

Madre Teresa de Calcutá

Momento

Uma tarde linda como a doçura
de umas mãos caídas sobre o ventre,
como um jardim de sombras algures na distância.
O eco de uma guitarra desce aos pastos,
aos pomares do sul.
Como se ama uma mulher junto aos rios
da nostalgia?
Como se dorme nos seus olhos?

Marlene

Fez hoje uma semana que a Marlene se foi embora. Aposentou-se. O computador, diante do qual ela se sentava horas a fio, está agora ocupado por outra funcionária.

No último dia de trabalho apareceu mais cedo e com a cara pintada de branco. Em volta da boca desenhou um sorriso escarlate, tão grande que se via à distância. Colocou balões ao redor da secretária e pôs à disposição de todos, num recipiente de plástico, biscoitos deliciosos que ela mesma confeccionara na véspera.

Meses atrás tinha-me confessado que contava os dias até se reformar. Não estranhei, portanto, o seu aparato naquela sexta-feira um tanto soturna e com um frio matinal extemporâneo. Era seguramente um dos dias mais felizes da sua vida.

Marlene tinha um temperamento de aço e a eficácia profissional de um relógio suíço. O seu coração, no entanto, era doce como um fruto tropical. Apesar de trabalhar ali há imensos anos, poucos a conheciam sem a carcaça social que ostentava. Eu fui daqueles, ou mesmo o único, que teve o privilégio de conhecer o seu lado manso.

Aproximei-me quando todos fugiam dela. Não era para menos: com o seu olhar de lince, o passo de guerreira medieval, a força iminente e explosiva do seu verbo acutilante, a turba, assustada, abria uma clareira para ela passar. Do outro lado, escondido por trás da sombra do medo, o alvo da sua truculência encolhia-se com a sabedoria de um cágado velho. Não havia argumentos nem defesas verbais plausíveis ante a sua investida. Era baixar a cabeça e pedir que o temporal fosse breve e sem grandes prejuízos.

Tudo isso porque Marlene não contemporizava com o desleixo e a ineficácia. Gostava das coisas bem feitas. Um erro era uma mancha, um desvirtuamento profissional. Não sentia o mínimo respeito por aqueles que não tinham orgulho naquilo que faziam.

Começou a trabalhar aos catorze anos, enquanto estudava. Era cuidadosa com as suas finanças, muito regrada, o que não obstou ter viajado muito e esquecer-se em hobbies que preenchiam a sua vida.

Casou com um homem que escreve e gosta de poesia. Publicou até um livro. Mais velho do que ela, já se encontra reformado há alguns anos. Nunca tiveram filhos. A Marlene, com um grave problema auditivo, temia que a deficiência obstasse a sua capacidade para cuidar de um bebé, caída a noite e todos os seus inerentes desafios.

No decurso da nossa existência, as pessoas vêm e vão. Muitas nunca estão connosco; outras, mesmo na ausência, ocupam o lugar de sempre. Para mim a Marlene nunca abandonou aquela secretária, nunca deixou de resmungar com o computador, demasiado lento para a vertiginosa velocidade dos seus dedos. E no entanto alegra-me a ideia de que ela e o companheiro, livres de incumbências, fazem neste momento aquilo que sonhavam há muito fazer: perderem-se nas intermináveis auto-estradas da América do Norte na sua casa de quatro rodas, cujos cortinados são as infatigáveis cores do crepúsculo.

Buena suerte amiga, y gracias por todo.

Parei a bicicleta para beber água. Foi então que notei uma sombra de ave correr o chão, aos ziguezagues, adiante de mim. Era um corvo. Tentava apanhar uma borboleta. Tenho sempre dificuldade em presenciar cenas assim. Desvio a cara quando mostram na televisão um animal predador atacar a vítima. Compreendo que é a lei da Natureza mas não gosto. Sinto uma imensa pena dos animais que não se podem defender. Esta tarde, porém, o corvo não levou a melhor: a borboleta desapareceu por entre uns arbustos, mesmo à minha direita.

Vinha a pedalar há quinze minutos. (Sempre que posso, vou de bicicleta para o serviço. São pouco mais de vinte quilómetros – ida e volta –, num carreiro próprio ao lado da auto-estrada. Depois atravesso a ponte, os semáforos, e meto-me um pouco no trânsito. Ao princípio custou. Agora as pernas já estão habituadas. Querem mais). Gosto particularmente daquele troço de estrada. Por isso parei lá. O cheiro dos arbustos faz-me lembrar a Gabela, minha terra, no recôndito do Sul angolano. Os cheiros e a música são dois elementos muito fortes na invocação de memórias.

Quando disponho de tempo, levo um livro (leio neste momento Paradise de Toni Morrison), a máquina fotográfica, e paro no café. Hoje foi a correr.

Por sinal, esta foi a Semana do Ciclista. Pretende-se que, com esta medida, se diminua um pouco a poluição. Mas a ignorância continua.

Há anos fui falar com o ex-presidente da Câmara onde vivo. Pedi-lhe que passasse uma lei, ou o que fosse necessário, para obrigar os motoristas a desligarem o motor enquanto esperam que o comboio passe. Quando são muito longos, podem levar até quinze minutos. A fila automóvel é grande, entre cinquenta a sessenta veículos a expelirem dióxido de carbono. Escutou-me até ao fim. Depois disse que não dispunha de meios para policiar os automobilistas. Saí de lá furioso e com uma enorme frustração. O certo é que até hoje continua tudo na mesma. Há uma grande irresponsabilidade cívica por parte dos cidadãos e dos políticos.

Não ando de bicicleta para salvar o mundo mas a minha consciência. Além disso gosto, sempre gostei, de transportes de duas rodas. Posso parar nas florestas da memória, escutar o Tempo, e absorver devagar os cheiros que povoam o Verão. Posso, enfim, colher o silêncio nas mãos até que ele voe como uma borboleta de luz. Andar de bicicleta é como um registo de vida que mergulha no passado, visando o futuro. Se a História se repete ainda falta esta, a dos ciclistas, a dos piqueniques nos campos, a do sol e dos rios, a da voz das crianças ao redor das primeiras águas. Cristalinas, quero dizer.

Sentir

Preocupo-me quando não sinto. Não posso, não quero e não devo viver alheado do que me cerca. Sentir é estar atento, recolher nas veias a serpenteante geografia da existência.

Não vivo autocentrado. Movo-me nos sobressaltos entre alegria e tristeza. Tenho tanta afinidade com a melancolia quanto tenho com o júbilo. Danço descalço numa praia de rituais e sentidos. Estou no vértice entre fogo e água, sombra e luz. A minha natureza é cantar sobre as pedras.

Amo tanto que não tenho pátria nem coração. O meu peito é um oceano. Todos os dias viajo por fronteiras imprevisíveis. Tenho um poema insondável a crescer entre os dedos.

Sentir é escrever o esplêndido, o inenarrável percurso do ser na grande, imensa praça dos dias.

Dá-me a tua mão: o nosso destino é a terra.

Ipanema Bourbon

Estou no café. Anoitece devagar. Duas mulheres atrás de mim conversam. Não me interessa o que dizem, mas oiço-as. Têm a euforia do sábado.

Na mesa em frente, perto da janela, está uma índia. Tem o cabelo muito negro, oleoso, liso e comprido. É a segunda vez que a vejo.  Aparece, pelos vistos, com o mesmo casaco, tipo kispo, vermelho com listas vermelhas. Notei-a a primeira vez porque estava sempre a falar sozinha, como agora. Com o café, bebe também uma gasosa, tipo 7Up, por uma palhinha. Bate com o pé direito no chão, acompanhando um samba.

Ao fundo, muito compenetrado, um chinês de óculos a escrever num computador portátil. Aparece muitas vezes. Tem auscultadores nos ouvidos e dois copos no seu lado direito.

Venho aqui quase todos os dias. Bebo café, oiço música, e escrevo num pequeno bloco de apontamentos. É de má qualidade: as folhas desprendem-se com facilidade.

Quase sempre aparece alguém conhecido. Esta manhã, enquanto lia o jornal, uma voz conhecida atravessou as folhas: era o… Já falei com ele imensas vezes mas não sei o seu nome nem ele o meu. Uma vergonha para ambos.

Baixinho, ossudo, vem aqui todos os dias buscar a sua dose de cafeína. Um copo monumental. Solteirão, gosta de motas. Voa por aí numa Ducati que lhe custou uma pequena fortuna. Gaba-se das vezes que já andou a 300 quilómetros por hora. Certamente que voa, à mosquito.

É um tipo giro. Tem olho rápido e discreto para as miúdas que passam. Histórias, muitas, de viagens. Sobre o jornal a sua voz, o sol alto, a cantar:

– Amanhã há corridas de motas!

Esta é a vida dele, a duas rodas, uma vertigem de se cortar o vento em milhões de partículas.

Passo o dia a falar de coisas que não me interessam. Por outro lado, vou aprendendo. Esta coisa de ser-se sociável é complicada.

Gosto de socializar para aprender. Mas nem sempre acontece. Uns, arrogantes no exercício do conhecimento, irritam-me; outros, papagaios depenados, palram para impressionar.

A índia acabou de sair. Levanto os olhos do papel e observo-a um momento: o andar manquejado pelo passeio, as mãos escondidas nas mangas muito compridas. Passa anónima sob os reclames luminosos das montras, muito vivos entre a negridão nocturna.

São quase dez horas da noite e o café não tarda a fechar. Fecho o bloco e guardo tudo na mochila. Visto o casaco, pego no capacete da mota e saio.

A noite de Maio ainda fresca. Ligo a ignição. Os duzentos cavalos sob o tanque de gasolina roncam, ávidos de estrada. Vou?

Boa noite.

Refúgio

É um lugar pequeno, isto é, a baía, o meu refúgio mexicano. Nestes dias de nervos e stress, pensava nele. Fica a menos de seis horas de avião. Pegar na mochila, num livrinho de apontamentos e na máquina fotográfica, e seguir. Mas esta coisa agora estranha da gripe suína, ou o que valha chamar-se-lhe.

O hotel fica numa pequena elevação. Das pequenas varandas vê-se o mar. No declive, que não é acentuado, plantas e flores tropicais. Estender-me na rede sob as palmeiras, o rumor da brisa. Adormecer de olhos abertos.

Penso e quero ir-me embora. A palapa na areia, o cais, o voo dos pelicanos sobre o azul.

Lembro-me que, uma vez, vi um anjo nos olhos de um cão. Era um bicho magro e sem a protecção de uma vida humana. Aproximou-se de mim a abanar a cauda. Ficámos na areia até o crepúsculo atirar-nos, lânguido, o último fogo.

O bicho exalava um cheiro a floresta, àquele mar tranquilo que a escuridão tornou negro, negro. Pobres bichos da Terra! Tão vulneráveis na sua liberdade, prisioneiros desta nossa eterna indiferença por tudo aquilo que passa ao nível dos nossos joelhos.

Procuro, em climas assim, a África perdida. Naquele lugar, porém, eu sou eu: descalço no chão de tijoleira vermelha, o mosquiteiro em volta da cama, o chuveiro aquecido a lenha. Na noite imensa, só há luz entre as oito e as dez. Depois acendem-se velas.

Por detrás do hotel o mistério profundo da floresta, dos linces negros, escorpiões, das aves nocturnas e sábias. Ouvir tudo acordado outra vez, sentir o escuro belo, belo, envolver-me, o mar a bater de mansinho no silêncio.  Beber então devagarinho a última tequila.

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