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Rosas

Levanto-te os cabelos e as nuvens de Junho passam pelos teus ombros. Os meus dedos crescem então nas tuas costas, devagar, com a música das borboletas. É na sombra do teu corpo que planto as quatro rosas brancas da minha alegria.

Natal?

Regresso a casa com as luzes do Natal a piscarem nos retrovisores da carrinha. Desligo o motor e logo o para-brisas se deixa tomar pela escuridão e pela chuva que, forte, obscurece o vidro. As luzes são das casas dos vizinhos. Vivo aqui há vinte e um anos e não os conheço. O pior de tudo isso é que eu não me importo, nem eles em relação a mim. Vivemos todos no Inverno do mundo, fechados, recolhidos nas nossas vidas egocêntricas. Não há curiosidade que nos una, um gesto, uma palavra de saudação. Um sorriso. Entramos e saímos dos nossos carros como se fôssemos apenas nós que morássemos nesta rua, e os nossos passos crescessem com ervas selvagens.
Com a mesma indiferença com que noto as luzes de Natal a piscarem na longa noite do vazio, tiro a chave da ignição, fecho a janela e saio para a chuva.

Génesis

O que sobra da noite quando adormecemos dentro de nós? A praia longe, o mar que nos cai dos dedos, a impregnação da pedra enquanto o sol deflagra sobre a nossa pele como uma onde de lume? Tantas perguntas nesta hora em que adormeço como uma raiz arrancada da terra. Oiço-me dentro do silêncio e é noite neste mundo em que habito. Descalço os sapatos, as peúgas, e sento-me na escada a ouvir ( e a sentir) o cansaço do meu corpo, velho companheiro. Há quantos anos, meu amigo, me levas pelo mundo? Há quantos anos bate este coração à procura da primeira música? Desde o tempo em que tudo era simples como a rua onde eu crescia.  O universo, acredita, cabia  inteiro à entrada da minha porta africana.

É noite, eu sei. Os meus passos são escuros e os meus pensamentos voam como aves que partem a cada instante das minhas veias.  Vivo no berço de cada impulso de sangue e nalgumas sílabas que atravessam o teu nome desde a primeira aurora do mundo.

Domingo

É domingo, faz sol, e no entanto só me apetece dormir.
Gostaria de acordar na Primavera, longe,
numa montanha ou num deserto infinito.
Ou nas páginas de um livro de aventuras.
Mas longe de mim, algures perdido no baço espelho
das circunstâncias.

Sobe as escadas devagar. Junho está perto das árvores
- palmeiras altas, a brisa a despenteá-las,
o teu olhar.
O sol derrama toda a água da tarde
sobre a tua pele.
Vê se te lembras do nome do mar
quando vais à janela.
«O cheiro do limão cresce entre os teus dedos
com a imensa infância dos frutos», disseste
uma vez.
Havia muita poesia na tua voz
e eu acreditei nessa mentira porque era do fogo
que me falavas e esse foi sempre a minha perdição
rente à loucura.
A vida é uma história escondida
no teu corpo, nos teus lábios húmidos
onde o crepúsculo solta as suas aves
mais ardentes.
Dá-me a tua mão.
Vamos pelos caminhos da terra
seguindo os flamingos
e aquele pedaço de céu que um dia descobriste
adormecido rente ao silêncio.

Estações da idade

Ando descalço sobre o nome da cidade.
Atravesso a rua.  Uma sombra caminha ao meu encontro.
Toca-me e desfaz-se como um grito.

Vim de África há muitos anos e nunca regressei
à idade da minha partida.

Agora estou num parque, no fim de Novembro,
e o Inverno aproxima-se.

Sou um homem com a memória de um menino.
Às vezes chove na janela sem fim
dos anos que correram adiante de mim.

Mas estou aqui, no parque que escurece,
com o meu violino. As folhas dançam,
geladas; o silêncio tem a cor da neve.

Os sinais da minha respiração crescem entre as árvores
adormecidas.
Mesmo fria a luz canta,  húmida.
Como um cão, beija-me as mãos.

Vou-me embora lentamente. Levo comigo
o teu nome, na minha boca e no meu peito.
Volto-me: os meus pés deixam na terra
o itinerário das aves.

Amo, murmuro aos ramos quebrados
deste dia enquanto o meu coração
te pede a viagem
de regresso ao poema.

Alebag, outra vez

Tanto pó na minha terra! Tanto vento descalço pelas ruas!
A mulher que ainda ontem viste a correr na tua infância,
cruza-se contigo na imponderável circunstância
do tempo.
As suas roupas envelheceram com o suor; teve filhos
como o abacateiro da estrada do Sul.
As costas, achatadas com a dureza da esteira,
foram o muro onde levou as crianças e a luz árdua
da pobreza.
Agora é uma sombra que passa, curvada e lânguida,
enquanto o dia vai escurecendo a sua pele nocturna
e um rio chora, mansinho, entre os seus pés.

Um caminho para o Sul

Corro e chove nas últimas palavras que voam sobre os meus ombros.
Perdem-se no ar e o único rasto que delas fica esvai-se
entre o cheiro da terra de Novembro, grave e húmida.
Mas fica a semente.
Leva-a contigo.
As palavras são átomos que actuam como os genes:
respiram na esplendorosa noite do coração,
multiplicam-se na primavera do corpo,
e ficam, como estrelas de água, presas às cores do olhar
e do sangue.
Regressam com a memória
e o crepúsculo,
como os brancos e rebeldes
pombos do Sul.

Proximidade

Aproximo-me devagar, sinto-te respirar, a boca tão próxima, a terra, ou toda a minha vida a correr sob o meu corpo, a luz do candeeiro, a luz que vem das veias e me afoga de inquietação, a boca, a tua boca tão perto, um oceano, o rosto a virar-se, a fugir, eu a afogar-me dentro de mim porque um homem também morre na música que foge na boca de uma mulher.

A ponte

Atravesso a ponte que me separa do dia. Fez sol, uma areia de oiro estendeu-se sobre as horas até que a música se dobrou sobre mim como um arbusto ferido.

Beijo agora o escuro, tão nu como a água sobre um corpo no Verão. Que digo? As palavras são o meu trigo e não sei de onde vêm. Bebo nelas aquilo que sou: uma folha de girassol a gravitar no universo.

É noite e nada posso fazer. Um século cresceu dentro de mim, todos os rios do mar. Estou naquele barco ao longe de onde te aceno para que vás ter comigo.

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